Carlos Motta


Alusão aos 25 anos de carreira do arquiteto e designer de móveis Carlos Motta, a exposição trouxe peças industrializadas, bem como cadeiras, poltronas, mesas e bancos de produção inteiramente artesanal. Marcou ainda o lançamento do livro “Carlos Motta”, da Editora DBA. Expôs 35 peças representativas do talento do autor, assim como suas preocupações ecológicas e culturais.

A mostra apresentou peças industrializadas, como a linha Flexa e a cadeira São Paulo – primeiro Prêmio MCB de 1987, ícone de seu trabalho. Trouxe poltronas, mesas, cadeiras e bancos produzidos artesanalmente no ateliê do designer. Além das peças feitas em escala, a mostra apresentou também as que foram elaboradas sob encomenda para museus, igrejas, centros esportivos e culturais e a série “Redescobrimento”, composta com madeiras reutilizadas de demolições de obras.

Formado em arquitetura, Carlos Motta intitula-se um apaixonado pelo cheiro e pela forma da madeira. “Desde criança, tudo na madeira me interessava. O cheiro, as cores, a forma, o corte da ferramenta. Tudo era prazeroso”, costuma dizer. Da paixão infantil surgiram os primeiros objetos: estilingue feito com forquilha de jabuticabeira, carrinho de rolimã e casa de cachorro. Logo veio a primeira peça: uma espreguiçadeira bonita e bem estruturada, confeccionada a partir de cabos de enxada feitos de guatambu – uma madeira roliça, clara e forte – garimpados em uma loja de ferragens.

A mostra teve curadoria de Mara Gama, cenografia de Bartira Ghoubar e apresentou ainda um lado pouco divulgado de Carlos Motta: sua atuação como arquiteto, envolvido em projetos comprometidos com a redução do impacto ambiental da ação humana sobre a natureza.

Trópico – Uma referência maior do design brasileiro

A mostra, com curadoria de Mara Gama, é dividida em três módulos que abordam o conjunto de sua obra sob o seguinte recorte: o ateliê, a indústria e o redescobrimento. Há ainda um vídeo sobre a trajetória, menos conhecida pelo público, de Carlos Motta no campo da arquitetura.

Por ser também a minha profissão, escolho focar aqui o design de Carlos Motta, do qual posso falar dele com uma qualidade mais objetiva. É interessante delinear, pelo recorte apresentado na exposição, várias filiações na história do design brasileiro.

Olhando para o módulo “ateliê”, penso imediatamente em Joaquim Tenreiro (1906-1992). Autor da célebre “Cadeira de três pés” e de tantos outros clássicos do móvel moderno brasileiro, esse designer teve papel fundamental na formação não só de Carlos Motta, como das gerações de designers que o sucederam.

É neste contexto, da produção de pequenas séries e de peças únicas, que Carlos Motta estabeleceu o seu vocabulário, seu repertório de especialista na madeira, material que elegeu, assim como havia feito Tenreiro. Cito aqui Maria Cecília Loschiavo dos Santos, em seu “Móvel Moderno no Brasil”: “Se, por um lado, o mobiliário de Tenreiro funcionou quase como um manifesto em favor do estilo moderno, por outro lado, em relação ao modo de produção, é preciso lembrar que era ainda completamente artesanal, em que o protótipo tinha uma tiragem mínima e, muitas vezes, ficava no exemplar único, por questões de compromisso com o cliente”.

Ainda referindo-se a Tenreiro: “Nasceu em Melo, uma aldeia ao norte de Portugal, que não oferecia os recursos necessários para sua formação profissional, o que, de certa forma, era prescindível para o artista, herdeiro da verdadeira tradição artesanal portuguesa dos trabalhos em madeira, que já era um patrimônio familiar. Ele afirmou: ‘Eu conheci o trabalho de madeira perfeitamente bem com meu pai, que era um artesão de móveis de primeira ordem. Na Província, o que era de madeira era com ele’ “1.

Vendo as cadeiras e outras peças desse módulo, fica evidente, por exemplo, que o fazer de Carlos Motta é muito mais fruto da oficina do que da prancheta, que os encaixes, as espessuras e texturas das madeiras, sua expressividade como material e sua importância enquanto recurso da natureza se sobrepõem a questões de racionalização da produção, facilidades de esquemas de montagem etc., que seriam mais característicos do que aqui associo ao trabalho de prancheta.

Esse design de prancheta, seria, por exemplo, o realizado por Oswaldo Mellone (1945), profissional que atua nos dias de hoje prioritariamente na área de mobiliário institucional e de equipamentos eletroeletrônicos, desenvolvendo, entre outros, projetos como o da poltrona de auditório Clip (1991). Essa cadeira, baseada em sistema pantográfico, destaca-se pelo eficiente sistema de recolhimento que possibilita um maior espaço de circulação entre as fileiras de um auditório.

No módulo “indústria”, me vem à mente Geraldo de Barros (1923-1998), cujos feitos foram fundamentais no sentido de inserir uma serialização através de sua participação na empresa Unilabor. “Em meados de 1954, orientada pela experimentação de formas industriais, visando uma produção em série de móveis e objetos, surgiu a comunidade de trabalho Unilabor, Indústria de Artefatos de Ferro, Metais e Madeira Ltda. (…) Aos poucos, a Unilabor foi se firmando (…) e abandonou os móveis por encomenda e os desenhos exclusivos e constituiu estoque próprio, possibilitando aos clientes opções dentre os modelos disponíveis em exposição. (…) Nesse momento, começou a se esboçar, sumariamente, o processo de componentização do móvel, cuja evolução só foi amadurecida mais tarde”.

É particularmente interessante notar como Carlos Motta faz a tradução do vocabulário que mencionei anteriormente para um novo modo de produção: a madeira tratada com o mesmo refinamento, a mesma inteligência, porém incorporando elementos que possibilitam uma fabricação industrial, como os encaixes simples e racionais da cadeira “Flexa” e a absoluta simplicidade projetual da cadeira “São Paulo”. Esses fatores certamente explicam sua edição em larga escala, tornando essas cadeiras verdadeiros ícones, não só da obra do designer, como de um momento do design paulista.

Já no módulo “redescobrimento”, vemos uma outra vertente do trabalho com a madeira, num procedimento de recuperação e reutilização, inaugurado, dentro do contexto brasileiro, por José Zanine Caldas (1919-2001). Esse designer, após longa trajetória no campo do móvel industrializado, dirigindo a Fábrica de Móveis Z, dá uma guinada radical em seu trabalho e passa a fazer o que ele mesmo define como “móvel denúncia”. “Lá em Nova Viçosa eu faço uma denúncia, dou um testemunho: ao ver aquelas madeiras imensas serem queimadas e jogadas fora, eu pego a madeira bruta e transformo em móvel, nas dimensões naturais.”

No entanto, mesmo em peças feitas a partir da apropriação de um pedaço de canoa, ou ainda no banco que parece preservar a forma do tronco que lhe serviu de base, a identidade, a marca de Carlos Motta permanece forte e presente, sobretudo através da escala das peças (as peças de Motta são normalmente grandes, corpulentas, chegando em alguns casos a serem mesmo pesadas).

O módulo final da exposição, apresentado em vídeo, trata da arquitetura de Carlos Motta, campo a que ele vem se dedicando com maior intensidade nos últimos 10 anos. É curioso observar que todas as casas do arquiteto são construídas fora da cidade, na natureza, seja na montanha ou no litoral. Essa produção arquitetônica se constitui como campo muito generoso para que Motta aprofunde a discussão, que lhe é tão cara, a respeito de questões ecológicas, de utilização responsável dos recursos naturais e da relação do homem com o meio ambiente.

Cito aqui um trecho de depoimento de Motta: “A arquitetura monumental nunca me atraiu muito. Eu me encanto com arquitetura quando ela está discreta. Mimetizada. (…) Em 1987, 1988, quando fui fazer minha casa em Camburi, eu estava meio sem dinheiro e comprei um terreno que era uma pirambeira. Um dia, subi a piramba para ver onde é que dava para fazer a casa. Era um matão, um verdão. Tinha calandos, teiús, gambás, muitos passarinhos, guaxinins, todos morando no meu terreno -eu achava que era meu, mas ele sempre tinha sido deles e das árvores. Então, percebi que queria morar com eles. Não pretendia chegar de botinão, pisoteando o mato, para dominar o ambiente. Assim, não devia mexer com o terreno. Foi aí que se consolidou essa idéia de mexer o mínimo”.

Quando iniciei meu trabalho como designer, em 1992, o contexto brasileiro era bem diferente. Naquele momento tínhamos muito menos designers atuando no mercado, exposições, publicações, lojas especializadas, enfim, nenhum dos elementos necessários que compõem um circuito de pensamento e produção. Mas Carlos Motta já era um profissional estabelecido e reconhecido, com uma obra autoral. Tenho certeza que, mesmo sem ter tido consciência disso na época, ele foi essencial para mim em um aspecto que até hoje é algo que me norteia: a questão da identidade e da assinatura.

Recentemente, em conversa informal com o próprio Motta, falamos sobre uma questão que ocorre a todo designer: cadeiras, mesas e utensílios em geral já existem aos montes, mais ou menos todos os problemas básicos já foram levantados e grande parte deles solucionados. O que nos mantém trabalhando e criando é em grande parte a constante busca por uma ressignificação dessas tipologias, por incorporar a elas as questões do nosso momento e do nosso contexto. A esse processo é que chamo aqui de formação de identidade.

Acompanhando a trajetória de Carlos Motta, apresentada nesta exposição e em livro (“Carlos Motta”, editora DBA, 144 páginas), podemos ver muito claramente a construção desse lastro, que se estende até as suas obras arquitetônicas. Ver uma peça dele significa reconhecer, de imediato, um traço, um gesto de Carlos Motta. E é essa identidade, estabelecida em 30 anos de trabalho, conduzidos pela pesquisa constante sobre a madeira e suas várias possibilidades de aplicação, que faz a obra deste designer ser uma referência, sobretudo em um meio em que pastiches e modismos chegam a falar tão alto.

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