Fotos mostram a invasão da ex-Berlim Oriental

MARA GAMA
ESPECIAL PARA A FOLHA

À primeira vista, dada a exuberância das cores, ampliada pela escala e pela justaposição das fotos, pode-se achar que a ex-Berlim Oriental é uma festa. Uma festa freak. Mas a exposição “Os Invasores”, de Renato Cymbalista, quer mostrar mais que isso.

São 116 reproduções, montadas em dois grandes painéis e algumas séries temáticas, com fachadas de prédios em vários bairros centrais de Berlim Oriental, invadidos após a queda do Muro, em 1989.

As fotos foram feitas em quatro viagens do autor a Berlim, entre 1992 e 1994. Revelam olho de urbanista. O interesse de Cymbalista (que é estudante de arquitetura) é o caráter da ocupação dessas áreas e sua linguagem particular.

Na diferença de pinturas, adornos, instalações que decoram as fachadas, Cymbalista vê algo de libertário: “As fotos mostram a coragem e a vontade de expressão dos moradores”, diz.

Ele associa a transformação das fachadas com um instinto demarcatório, em geral sufocado com a pasteurização das cidades, e revelado em diversas formas nessa área de experimentação urbana. “São eles os verdadeiros cidadãos, aqueles que, sem pedir, se permitem usar e transformar a cidade”, escreve o autor no texto que apresenta a exposição.

A experiência é, de fato, “sui generis”. Após a ocupação, muitos dos invasores conseguiram da Prefeitura de Berlim a formalização de contratos de moradia, pois há interesse da administração em manter os prédios em uso, o que garante em parte sua conservação.

Com isso, a decoração das fachadas sinaliza que naquelas “casas” há uma diferença que não está só na presença da cor, do gesto da pintura, mas de uma relação urbana conquistada pelo morador.

Se você não souber se o que vê é arte ou documento, estará seguindo o script pretendido pelo fotógrafo. Sem preocupação com o apuro técnico –apesar da boa qualidade das reproduções coloridas– o autor quer usar seu “diletantismo” na fotografia como elemento expressivo, tentando “uma relação mais direta com o público”.

“Quero proporcionar às pessoas um passeio como o que fiz”, diz. Cymbalista considera seu trabalho filiado ao da fotógrafa Anna Mariani: “Talvez não tivesse tido a idéia de documentar as ocupações se não conhecesse o trabalho dela. Além disso, é mais ou menos o mesmo partido, mostrar o que qualquer um poderia ter visto”, diz. A exposição segue para Curitiba, Porto Alegre e Rio.

Exposição: Os Invasores
Onde: Museu da Imagem e do Som (av. Europa, 158, tel. 011/280-0896)
Quando: abertura hoje, às 20h; até 18 de setembro. De terça a domingo, das 14h às 22h

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