Arquitetura: Lemos escreve a história da “casa do caipira”

MARA GAMA
Gerente-geral de criação do Universo Online

O arquiteto e historiador Carlos Lemos revela a história de uma arquitetura peculiar, praticamente destruída e pouco estudada: aquela que dominou o território de São Paulo nos três séculos que antecederam o ciclo do café.

“Casa Paulista”, livro que será lançado nesta segunda-feira, traz farta ilustração em fotos, plantas atuais e descreve técnicas construtivas e programas de cem construções dos séculos 16, 17 e 18. Mas não é livro só para historiadores e arquitetos. Conta a história da cultura colonial numa cidade sem registros gráficos.

Continuando sua pesquisa em inventários, testamentos e raros depoimentos, pesquisa que se iniciou nos anos 50, quando começou a coletar documentos para o seu já esgotado “Dicionário da Arquitetura”, Lemos sistematizou as informações sobre a morada do “caipira” em cinco momentos. Os momentos: moradas do bandeirismo e anos seguintes à descoberta do ouro em Minas (séculos 16 a 18); moradas do tempo do açúcar ituano e do tropeirismo; casas de influência mineira; casas de Iguape do tempo do arroz e casas do início do ciclo cafeeiro.

No momento em que as celebrações dos 500 anos do descobrimento tendem a privilegiar mostras da miscigenação étnico-cultural brasileira, “Casa Paulista” focaliza o oposto: o isolamento da população que vivia no Planalto de Piratininga e persistiu habitando casas muito semelhantes, sem influências das culturas indígena e africanas. “O caipira criou uma arquitetura rural de taipa de pilão bandeirista que se repetiu à exaustão por 250 anos. Chamo de paravernacular esta arquitetura porque foi fruto de uma sociedade segregada que só sabia fazer taipa e repetir uma mesma planta”, diz Lemos, 73. A seguir, trechos da entrevista.

Folha – “Casa Paulista” mostra período pouco conhecido. O que há de específico nessa arquitetura?
Carlos Lemos
 – Nesse esforço coletivo de celebrar os 500 anos do Brasil, há uma coisa que ninguém repara. Há uma contribuição paulista na formação de um patrimônio cultural de origem unicamente ibérico. O acervo cultural de portugueses e espanhóis foi digerido e misturado com influências locais indígenas e também negras que resultou um patrimônio de nossa cultura material híbrido ou sincrético em muitas áreas. Mas há dois aspectos da cultura material que não sofreram aqui alteração: o arquitetônico e o da arte sacra. Me refiro à arquitetura de taipa de pilão e de taipa de mão. A arquitetura trazida pelos portugueses e espanhóis não recebeu influência nenhuma de lado nenhum e ao mesmo tempo foi sendo digerida, modificada e adaptada conforme solicitações locais. Deixou de ser ibérica para ser paulista.

Folha – O sr. diz no livro que a arquitetura do período é uma esfinge semidecifrada. Por quê?
Lemos
 – Primeiro por estar praticamente desaparecida. Para compreender bem uma arquitetura você tem de ter muitos exemplares para comparar e compreender as relações que tinham entre si. Outro motivo é a ausência total de iconografia. Não tem quase nada pintado ou desenhado antes do século 19. Os documentos são escassos, a iconografia é nula e os exemplares estão praticamente desaparecidos. Você vê uma casa e não sabe por que foi feita daquele jeito. Muita coisa está perdida dessa civilização paulista, forjada na solidão do Planalto. É a civilização caipira, do homem que ficou sozinho no mato, como uma espécie de Robinson Crusoe (personagem criado pelo escritor Daniel Defoe).

Folha – Partindo dos inventários e testamentos, como se chega a vislumbrar a arquitetura colonial?
Lemos
 – Estudando os programas da habitação. O programa da habitação não é simplesmente um rol de atividades -sala cozinha, quarto-, é isso, mas tendo como principal escopo analisar como esse programa era exercido. É preciso estudar a peculiaridade regional e a técnica construtiva. A partir do programa e da técnica construtiva você chega na definição da casa. Me baseei no programa, na técnica construtiva e no partido final.

Folha – Existe herança dessa casa colonial paulista hoje?
Lemos – Até uns 30 anos atrás, se projetava ainda casa com copa, que era centro do viver cotidiano, área ligada à cozinha, à sala de jantar, à escada. É herança colonial. Os arquitetos modernos tentaram ressuscitar esse convívio. Até Rino Levi fez escada para os quartos saindo da sala. Mas hoje o programa da casa é muito diferente.

Livro: Casa Paulista
Autor: Carlos A . C. Lemos
Lançamento: Edusp
Quanto: R$ 45 (264 págs.)
Quando: 12 de abril, 19h30
Onde: Ática Shopping Cultural (av. Pedroso de Morais, 857, SP, tel. 011/867-0022)

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