Há 60 anos, MoMA descobria a “escola brasileira”

MARA GAMA
especial para a Folha de S.Paulo

Há 60 anos, uma conjuntura política peculiar impulsionou a arquitetura brasileira no mundo. A atenção da crítica se voltaria para a produção recente e inovadora de jovens profissionais. Oscar Niemeyer, Lucio Costa, os irmãos Marcelo e Milton Roberto, Afonso Reidy, Gregori Warchavchik, Roberto Burle-Marx, Rino Levi e Álvaro Vital Brazil tiveram projeção jamais igualada pelas gerações seguintes.

Era 1943, e o MoMA (Museu de Arte Moderna), de Nova York, abria a mostra fotográfica “Brazil Builds: Architecture New and Old 1652-1942”, organizada pelo arquiteto Philip Goodwin, da comissão de relações exteriores do museu, e por G.E. Kidder Smith, um dos maiores fotógrafos de arquitetura do século 20. Precedida por uma viagem de descobrimento do Brasil pelos dois enviados do MoMA, a mostra gerou o catálogo “Brazil Builds”, clássico da historiografia da arquitetura brasileira.

Foi o “passaporte da arquitetura brasileira para o mundo pós-Segunda Guerra”, segundo o arquiteto Hugo Segawa. Na esteira da mostra, o que se fazia no Brasil passou a ser conhecido por “brazilian school”, e seus expoentes, observados pela crítica como vertente diferenciada do modernismo. Segawa aponta a mostra do MoMA como uma das “peças” da política de boa vizinhança do governo de Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), nos EUA.

Outros exemplos da mesma política foram a Feira Mundial de Nova York, em 1938, onde estava o pavilhão brasileiro (que unia os pilotis de Lucio Costa e as curvas de Oscar Niemeyer); a viagem de Walt Disney ao Brasil, com a criação de Zé Carioca; a vinda de Orson Welles ao país, para rodar o nunca concluído “Tudo É Verdade”; e a viagem do músico Leopold Stokowski, em 1940, para fazer o disco “Native Brazilian Music”. Foram gravadas 40 músicas, selecionadas por Heitor Villa-Lobos e executadas por músicos arregimentados por Donga. Stokowski levou o “master”, e o disco nunca saiu por aqui.

A conotação política de “Brazil Builds” é clara. No prefácio do catálogo, escreve Goodwin: “O MoMA e o Instituto Norte-Americano de Arquitetura achavam-se ambos, na primavera de 1942, ansiosos em travar relações com o Brasil, um país que ia ser nosso futuro aliado. Por esse motivo e pelo desejo agudo de conhecer melhor a arquitetura brasileira, principalmente as soluções dadas ao problema do combate ao calor e aos efeitos da luz sobre as grandes superfícies de vidro na parte externa das construções, foi organizada uma viagem aérea”.

A seleção das mais de 80 obras teve participação do governo brasileiro: “Os principais interlocutores de Goodwin foram a intelligentsia do governo de Getúlio Vargas, sobretudo o grupo de Rodrigo Mello Franco Andrade, diretor do Iphan. Boa parte das obras do livro era de realizações governamentais”, conta Segawa.

A mostra do MoMA divulgou a vanguarda do pensamento arquitetônico, que, à época, tinha patrocínio do Estado. Um ano antes da mostra, em 1942, aos 35, Niemeyer finalizava o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte. A obra, que se tornou paradigma, era um dos destaques da exposição promovida pelo museu.

De Álvaro Vital Brasil, então com 34 anos, aparecia o Edifício Esther, em São Paulo; dos irmãos Marcelo Roberto, de 35 anos, e Milton Roberto, de 29 anos, a sede da Associação Brasileira da Imprensa e o Aeroporto Santos Dumont, no Rio. “Se pensarmos que Lucio Costa foi a cabeça da equipe do projeto do Ministério da Educação com apenas 35 anos, fica evidente como os brasileiros foram precoces em relação aos grandes mestres do século 20”, diz Segawa.

“A arquitetura de Le Corbusier já provocava espanto no mundo. Com a mostra, causou ainda mais surpresa que a maior obra modernista do planeta [o ministério] estivesse sendo feita no Brasil”, diz Ruy Ohtake, para quem a escola brasileira é a mais duradoura do mundo. “Dura mais que a bauhaus e o art déco. São mais de 50 anos”, diz.

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