A Terceira Revolução Industrial – Revista Select

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No futuro próximo, os birôs de fabricação digital dividirão as esquinas com os carrinhos de pipoca e cachorro-quente

Texto: Mara Gama

Com as impressoras 3D, o design viaja de forma barata, qualquer geometria é exequível e torna-se possível fundir coisas que não podiam ser misturadas, como música e volumes tridimensionais em ferro

Vozes e ruídos dos bairros do Grajaú, Cidade Tiradentes e da região da Santa Ifigênia, em São Paulo, se fundem ao desenho de cadeiras ícones do design paulistano. Um pote raro de cerâmica marajoara é clonado e estudado pelo mundo afora, sem risco de quebrar. Uma família manuseia uma réplica de seu bebê em gestação. São alguns projetos de designers brasileiros com impressão 3D, ou fabricação digital aditiva. A fabricação digital é um processo em que desenhos feitos ou transformados no computador são materializados. Há três técnicas: aditivas, subtrativas e conformativas (ou formativas). As aditivas produzem objetos pela sobreposição de camadas sucessivas de material líquido ou em pó, como resina, plásticos diversos, gesso ou metal, que são solidificadas, umas sobre as outras. As subtrativas removem material de um bloco, como uma escultura, com cortadoras, perfuradoras e fresas. As técnicas conformativas ou formativas moldam e curvam chapas.

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A tecnologia já existe desde os anos 1950, mas as máquinas eram extremamente caras e tinham muitas limitações quanto ao tamanho dos objetos produzidos. Por causa disso eram usadas por grandes fábricas apenas para testar seus projetos. Ficaram conhecidas como máquinas de prototipagem rápida. Com o aprimoramento constante – mais tipos de materiais para compor os objetos, possibilidade de produzir itens maiores e mais complexos – e barateamento de hardware e software, as máquinas deixaram de ser apenas adequadas para fazer testes e passaram a ser usadas para produzir efetivamente. Aí o salto. Se ainda não está disponível em cada esquina, como imagina o projeto Kiosk, a fabricação digital está disseminada e gerando frutos em alguns escritórios, ateliês e laboratórios no País, seja no formato dos FAB LABs, criados pelo pesquisador Neil Gershenfeld, do Centro para Bits e Átomos do Massachusetts Institute of Technology (MIT), como é o da FAU-USP, seja em centros ligados a institutos de tecnologia e arquitetura, como são o Núcleo de Experimentação Tridimensional (Next), da PUC do Rio, do Instituto Nacional de Tecnologia, e do Laboratório de Automação e Prototipagem para Arquitetura e Construção (Lapac), da Unicamp.

Cadeiras-manifesto

 

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As cadeiras Nóize foram criadas pelo arquiteto Guto Requena. As matrizes são a Girafa, de Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki, a Oscar, de Sérgio Rodrigues, e a cadeira São Paulo, de Carlos Motta. Depois de captadas e modeladas em plataforma digital 3D reproduzindo seu molde físico, foram submetidas a uma deformação – com a linguagem Processing – por meio de um arquivo de áudio, obtido em gravações nas ruas dos três bairros paulistanos.

O arquivo digital resultante desse processo de mixagem foi enviado via web para a Bélgica, diretamente para uma máquina de impressão 3D da empresa I-materialize, uma das mais atuantes na área. Após a impressão em ABS – o mesmo material de alta resistência de que são feitas as peças de Lego –, as três cadeiras foram despachadas para o Brasil. São quase iguais às suas mães, mas parecem vibrar. “A forma final é o que menos importa. Ela é incômoda. Não foi a beleza que me guiou. O bom design tem de contar uma boa história, antes de mais nada”, diz Requena. A série foi encomendada para uma mostra do coletivo Amor de Madre, em que três designers não paulistas criaram odes à “beleza escondida” de São Paulo.

Não foi a primeira experiência de Requena com o mix digital com propósito poético. Para a Semana de Design de Milão de 2012 ele criou a coleção Era Uma Vez, para a empresa de vidros Guardian. Registrou pelo celular, em mp3, a voz da própria avó contando fábulas. Os registros foram usados como parâmetro e se transformaram em volumes tridimensionais, gerando as formas finais dos vasos. Mas, na hora de fabricar, Requena optou pela técnica artesanal da moldagem por sopro, em formas de ferro. O designer se diz fascinado com a riqueza de possibilidades digitais: “Quando tudo pode virar bit, tudo pode virar a mesma coisa, códigos numéricos. E você pode fundir coisas que antes não podiam ser misturadas”, diz.

Fábrica Doméstica

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“Meu filho Lucca imprimiu o dinossaurinho que desenhou”, diz o designer Jorge Roberto Lopes dos Santos (Foto: Jorge Roberto Lopes dos Santos)

O mesmo entusiasmo tem o autor Chris Anderson, editor da Wired, no seu recente Makers – The New Industrial Revolution. “A Era da Web liberou os bits; eles são criados de forma barata e viajam de forma barata também. Isso é fantástico”, escreve. Anderson defende que a “fábrica doméstica” engendra uma nova revolução industrial, porque muda o circuito da produção. “Vimos como o modelo de democratização inovador da web impulsionou o empreendedorismo e o crescimento econômico. Imagine só o que um modelo similar pode fazer na macroeconomia do Mundo Real. Isso já está acontecendo. Há centenas de empreendedores emergindo hoje do Maker Movement, industrializando o espírito do DIY (do-it-yourself, faça você mesmo)”, escreve o autor.

O designer carioca Jorge Roberto Lopes dos Santos concorda com Anderson. “Espero por isso há muito tempo. Com a possibilidade cada vez maior de as próprias pessoas interferirem digitalmente em modelos virtuais 3D e com o rápido avanço das impressoras 3D imprimindo em materiais diversos, teremos num futuro breve o mesmo impacto que os braços robôs tiveram na indústria. Com a impressão 3D, a cadeia lógica de produção é quebrada, pois se passa a não ter moldes, matrizes etc. E qualquer geometria passa a ser exequível, o que dá uma incrível liberdade projetual para os designers”, diz. Lopes acaba de voltar da primeira 3D Printshow, em Londres, evento novo que reúne cientistas, programadores, engenheiros e designers, e cujo slogan é algo como “A internet mudou o mundo nos anos 1990. O mundo está em vias de mudar de novo”.

A Serviço da Ciência

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Coletivo belga Unfold questiona autoria e originalidade por meio da impressão 3D

Com o paleontólogo Sergio Azevedo, do Museu Nacional, Lopes expôs na 3D Printshow diversos trabalhos seus, como modelos de um crânio de crocodilo extinto, uma múmia egípcia de gato tomografada – mostrando o esqueleto dentro da múmia – e dois vasos marajoaras raros escaneados e impressos em 3D. Além de dez modelos de fetos em diferentes fases gestacionais. O designer é reconhecido internacionalmente por esse projeto, o de imprimir modelos de fetos, já patenteado e com o qual tirou seu Ph.D., em 2009, no Royal College of Art (RCA), em Londres, sob orientação do designer Ron Arad. Um modelo do filho Lucca ainda na barriga da mãe faz parte da coleção permanente do Science Museum, em Londres. Lopes começou a trabalhar com impressão 3D ainda na década de 1990. Em 1997, entrou para o Instituto Nacional de Tecnologia, onde criou o primeiro laboratório de impressão 3D do Brasil, o Laboratório de Modelos Tridimensionais (Lamot).

Ali foi colocada também a primeira impressora 3D do Brasil. Atualmente, ele trabalha na PUC-Rio como pesquisador do Departamento de Design e coordenador do Núcleo de Experimentação Tridimensional. É no Next que acompanha um trabalho de impressão 3D para construção civil, para imprimir casas – baseadas na análise de composição da casa do pássaro joão-de-barro. E desenvolve artigos esportivos digitalmente personalizados para atletas para a empresa Tecnologia Humana 3D. “Estamos escaneando atletas e imprimindo para eles óculos de natação, caneleiras e capacetes.”

Na Bienal de Design de Belo Horizonte, encerrada no fim de outubro, Lopes participou do painel Emergent Technologies, em que apresentou para a plateia de designers presentes a impressora Rep Rap, que tem por princípio a própria replicação. “Li uma matéria no The New York Times, em 2003, em que um pai dizia para o filho: ‘Se você se comportar, mais tarde vou te imprimir um brinquedo’. Finalmente, hoje em dia é uma realidade. Fiz isso com meu filho Lucca. Ele imprimiu o dinossaurinho que desenhou.”

Imprima seu Philippe Starck no quiosque ao lado

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Foto: Roberto Stelzer

Kiosk, baseado na novela homônima de Bruce Sterling, de 2007, é um projeto do coletivo belga Unfold , que explora a ideia de um futuro próximo em que os birôs de fabricação digital serão ambulantes e dividirão as esquinas com os carrinhos de pipoca e cachorro-quente. No Kiosk, você pode materializar uma cópia pirata de um design famoso, como o espremedor de sucos de Philippe Starck ou o vaso de ondas de Alvar Aalto, de plástico, ou imprimir um objeto criado por você. O projeto quer provocar discussão sobre autoria, originalidade e sobre o papel do designer quando os produtos viram projetos digitais e podem ser apropriados. O Kiosk foi exposto na mostra After the Bit Rush – Design in a Post Digital Age, em Eindhoven, na Holanda, em 2011, e no Salão de Milão de 2012.

Endless: uma cadeira feita com restos de geladeira

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Foto: Roberto Stelzer

Endless, de Dirk Vander Kooij, ganhou prêmio na DMY, Festival Internacional de Design de Berlim, em 2011. Surgiu como trabalho de conclusão de curso para a Academia de Design de Eindhoven, na Holanda. Endless evoca as infinitas possibilidades do material sintético. O designer reprogramou um robô industrial antigo para a impressão de objetos. O robô compõe o desenho em camadas, com um fio de material obtido da reciclagem de peças de interior de geladeiras. A ideia foi fazer um processo de produção flexível. “Pouco tempo atrás, móveis de plástico só poderiam ser fabricados por moldagem por injeção. Os moldes são caros e só vale a pena fazer para grandes tiragens. Este novo processo permite que o designer modifique o projeto cada vez que uma peça é produzida, sem despesa adicional, seja para aprimorar algum aspecto, seja para atender o pedido de algum usuário”, explica.

 

 

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*Publicado originalmente na edição impressa #9.

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