O Lugar do Homem, de Rogerio Canella, Operaçao Ilegal, de Cris Bierrenbach, e instalações de Chiara Banfi, Clarissa Tossin e Andrezza Valetin

Mara Gama

As paisagens esvaziadas de Rogério Canella sugam a atenção para o núcleo. Terra arrasada.

“O Lugar do Homem” é o título da série exposta no cubo. Ficar no centro do cubo, guardando boa e proporcional distância das três paredes laterais, faz com que as paisagens de Canella envolvam o corpo e o olhar.

O artista enquadra seu terreno como paisagem, em corte horizontalizado, grandes dimensões e com precisão geométrica. São lugares desabitados. Ele documenta a paisagem com a perspectiva clássica, do fotógrafo que descortina o ângulo possível a partir do centro. Olhar frontal. O lugar do homem, ele mesmo batizou.

Capta um momento. Flagra um novo instante. Noite e dia. Forma dípticos que registram o movimento ou o repouso da paisagem no decorrer do tempo. No caso de “Obra (noite e dia)”, obtém, pela contraposição, a idéia da organização do caos elaborada durante a noite. Movimento anônimo. O gesto que modifica a paisagem está fora de controle. O movimento é a parte que nunca aparece.

O enquadramento exemplar da captura, propositadamente, traz, em cada foto, convivendo, para usar a linguagem mais banal, a “melhor” e a “pior” imagem.

A melhor imagem porque o resultado plástico, de composição formal, de cores, planos, luz e sombra e texturas é harmônico e sedutor.  A “pior” porque o comentário, também silencioso, é sobre a destruição. São prédios em demolição, em geral escondidos por tapumes ou muros, que Canella invade para fotografar.

Canella registra mas não legenda com local e data. Ainda que documente a imagem daquele local específico, ele parece falar da destruição sem um lugar certo, que pode estar em muitos planos. A destruição no plano deste tempo, de aqui e agora, de uma guerra anunciada e suspensa no ar, não se sabe até quando. A destruição da cidade, desta e de todas as outras; a destruição da casa, como objeto construído e como abrigo e, claro, a destruição do lugar do homem. De todos e de cada um.

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“A Operação Ilegal” de Cris Bierrenbach pode se anunciar, num primeiro momento, como inocente jogo de espelhos, em sua série de bonecas.

As bonecas são meio estropiadas, deformadas e se sabe que algumas delas vieram de um lixão. Aqui, elas têm apenas metade dos rostos. Com a imagem difusa, que soma positivo e negativo, proporcionada pelo daguerreótipo, elas ficam parecidas com algo que não se lembra direito. São imprecisas, insinuadas, inapreensíveis.

Em pequenas dimensões, os daguerreótipos obrigam o olhar a se aproximar. Aproximando-se, você não pode deixar de se ver também. E aí, você fecha um olho e encaixa o seu rosto numa metade boneca. O daguerreótipo é como um espelho que transporta você ou a sua imagem para uma espécie de infância genérica e aterrorizante. Morta. Se você tiver brincado de boneca quando criança…

Prosseguindo na idéia da montagem, no jogo da participação do público na obra e numa certa temática feminina, Bierrenbach exibe uma projeção interativa formada apenas por legendas que se alternam num fundo preto.

“É mais uma operação ilegal: o furto de narrativa alheia”, diz a artista. Extraídas de um capítulo do seriado americano “Sex in the City”, do filme “Coisas que você pode dizer só de olhar para ela” e de um documentário sobre prostituição produzido pela BBC, 250 frases de diálogos entre mulheres ou sobre mulheres se interpõem aleatoriamente, em procedimento que lembra a fórmula da poesia Dada. O fluxo anárquico do diálogo prossegue até que alguém, o público, queira intervir. Aí, cada um pode selecionar frases, tomar as rédeas e conduzir sozinho o “diálogo”.  Mas o diálogo é mudo, sem som. Só legendas, só um “autor”, mas que, na verdade apenas seleciona a ordem num repertório dos outros.

O programa foi batizado de “Histórias de Maria e Eliza”. Maria, em homenagem ao primeiro estúdio de fotografia, o “Black Maria”, e Eliza, o mesmo nome do primeiro programa que usava um conceito de inteligência artificial, “respondendo” perguntas tidas como “subjetivas”.

Uma nova série de daguerreótipos da artista exibe mãos, braços, punhos, dedos em gestos criados e alguns sinais universais. Têm delicada beleza. A pele do modelo foi preparada com óleo, tinturas para conseguir obter em cada foto expressão diferente, marcas, rugas, brilhos. Ali, o uso do daguerreótipo, “reinventado” como suporte para capturas em fotografia e fotograma e explorado pela fotógrafa há dois anos, atinge o maior grau de refinamento e expressividade, gerando imagens poéticas “contaminadas” pela preciosidade da prata e da própria história da fotografia.

Na série que pode ser considerada a mais “chocante” da mostra, Bierrenbach faz o seu “Retrato Íntimo”. Novo jogo. São fotos resultantes de radiografias escaneadas e posteriormente invertidas: o branco vira preto e vice-versa. Na imagem, que começa na coluna lombar e vai até o meio das coxas, uma bacia feminina centralizada contém objetos cortantes, perfurantes. Garfo de dois dentes, seringa, canivete, tesoura. A radiografia, que inaugurou o “diagnóstico por imagem” na medicina, exibe sua descoberta: neste corpo de mulher foram encontrados objetos perigosos e incomuns!

E a cada imagem que se segue, o olhar de quem vê a “realidade” revelada pela radiografia pode se perguntar: “Será que é truque?”, “Será que dói?”, “Será que furou alguma coisa mole lá dentro?”.

Mas, que distância afinal existe entre a abertura para o exterior e o interior, propriamente dito?

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O trabalho sobre o espaço da galeria liga os trabalhos de Andrezza Valentin, Clarissa Tossin e Chiara Banfi

Andrezza pintou de preto as paredes externas, bancos e mesa que ficam do lado de fora da Vermelho, subtraindo o branco que delimitava o desenho do cubo e o separava dos objetos de seu entorno.

A massa negra que escondeu a forma maior “dentro” do ambiente externo, destaca e convida ao interior, criando o cenário para a reimplantação teatral da galeria.

Entregue pela preparação da cor ao interior da galeria, o olhar de público encontra a primeira das três imagens que compõem o projeto de sinalização da exposição, criado pela designer Clarissa Tossin, (que assina A´(linha)). Se o preto funciona como um simulador natural, o magenta explora a total arbitrariedade da imagem construída.

Clarissa desdobrou em representação tridimensional a planta baixa da galeria e faz ver em modelo suspenso o espaço de exposição. A designer calculou “quanto” de interior tem a galeria: “1.346 metros cúbicos” (para trabalhar sobre o objeto é preciso mensurá-lo!).

Ao representar o espaço da galeria como mapa indicativo, sinalizar e localizar as obras, no entanto, Clarissa cria um outro registro. O mapa, que é útil, informa e dirige, pode também ser visto como um objeto autônomo que, resguardado na sua função, convive lado a lado com as obras de arte. A diferença?

Chiara Banfi partiu literalmente dos cantos dos espaços “anexos” e foi invadindo a arquitetura da galeria.  Se encontrar um pedaço (do quê?) e seguí-lo, o visitante verá aparecer uma espécie de notação “musical” (pelo movimento e modulação) flagrada no ar e condensada em paredes, tetos, chão. Recortados manualmente, sem desenho ou demarcação prévia, os “contacts” “de madeira”, pretos e prata têm linhas e formas sinuosas, orgânicas, alternando bolsões e filetes, criando evoluções.

Apesar de uma certa referência Art Nouveau, as formas têm um comportamento caótico e randômico nas direções. Entram em armários, “escorrem” para cima, penetram nos vãos das portas.

Com seu organismo, colônia, vírus, sistema circulatório expandido ou novo tipo de fractal, que seja, Chiara atua em campo lúdico e mágico. Parece passear num mundo meio fabuloso, de onde pode ter vindo também o pé de feijão que crescia descontroladamente e conduziu João ao encontro do Gigante.

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