Design: Palafitas hi-tech

Projeto premiado propõe o uso do aço para construir prédio sustentável

por MARA GAMA

A um metro e meio acima do solo, apoiados como palafitas, prédios de apartamentos vão misturar estrutura hi-tech de aço e idéias da cultura construtiva regional no bairro de Jiquiá, a 7 km da área central de Recife, em Pernambuco.

Viabilidade, mobilidade da planta interna, ventilação natural e adequação ao espaço e cultura locais foram algumas das características apontadas pelo júri internacional que deu o primeiro prêmio de 50 mil euros ao projeto do escritório paulistano Andrade-Morettin, no 2º Concurso Internacional de Arquitetura Sustentável para Moradia.

Arquitetura “essencial” ou “elementar”. Assim o arquiteto Vinicius Andrade, um dos autores, define o trabalho. A idéia é que a eficiência construtiva estrutural, econômica, ecológica fundamente-o, do ponto de vista material e do programa de intenções. O escritório tem outro exemplo de arquitetura essencial, uma residência recém-construída no litoral de São Paulo.

O projeto de Recife pode dar um “tilt” na imagem mais difundida e imediata do que seja ecológico, por usar aço e material industrializado. “Acho bom que se desfaça o mito de que sustentabilidade é fazer casa de madeira em terra socada. O globo é uma superfície finita. Se você pensa em escala global, tem de adensar e ter uma linha de produção industrial para a construção, como resposta econômica e eficaz ao déficit habitacional”, diz Andrade.

O arquiteto defende que, na análise comparativa entre os sistemas e materiais construtivos, o aço vence. “A extração do aço é mais limpa que a extração do componente que gera o concreto, consome menos energia e deixa menos resíduo. No canteiro, os componentes pré-fabricados proporcionam rapidez, racionalidade e uma obra seca”, afirma o arquiteto.

Obra seca é o que o nome diz mesmo: aquela em que se evita o uso da grande quantidade de água necessária para preparar cimento, argamassa ou reboco. A obra seca economiza água tratada e devolve menos água contaminada ao sistema captador de esgoto da cidade.

Segundo o projeto para o conjunto de Recife, todos os componentes serão aparafusados, rebitados ou montados. O ciclo de vida é totalmente diferente da alvenaria. As peças foram desenhadas para permitir montagem e desmontagem, reaproveitamento em outras estruturas de outros projetos e, ao final, a possibilidade de refundir para produzir outros componentes.

Para liberar o terreno e evitar aterros, que danificam flora e fauna e pressionam a água a encontrar outros caminhos, o projeto opta pela construção suspensa, apoiada nas fundações. Por causa da intensa insolação, usando também um artifício bastante empregado na arquitetura local, os prédios têm cobertura ampla, solta e sem fechamentos, que proporcionam o empilhamento de lajes sombreadas.

A cobertura, de telha metálica de aço termoacústico, é estrutural (ou seja, não precisa de armação de madeira para sustentar), feita em vão, e tem uma calha central para captar água para reuso.

“A construção civil é uma das atividades econômicas que mais consomem recursos no planeta. O Brasil tem excelência no concreto e pouca tradição no uso de aço. É fundamental diversificar. Ao projetar para as metrópoles da complexidade, não é possível pensar em soluções estanques”, defende Andrade.

Promovido pela ONG Living Steel, formada por grandes companhias de aço para difundir o uso do material na construção habitacional, o concurso começou com uma convocação internacional aberta, a partir da qual foram selecionados 18 escritórios, incumbidos de projetar para três terrenos específicos, no Brasil, na China e na Inglaterra.

A construção dos 192 apartamentos de Recife pode ser realizada em apenas seis meses. As obras devem começar daqui a um ano. Os apartamentos terão 55 m2 e serão agrupados em prédios de 24 a 40 unidades.

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