Design: Decoração é lixo, afirma mestre do design gráfico

Alexandre Wollner comemora hoje seus 70 anos, com palestras e projeções de objetos no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo

MARA GAMA
Gerente-Geral de Criação do Universo Online

Uma projeção de mais de cem objetos e palestras de José Mindlin, Décio Pignatari e Ricardo Van-Steen comemoram hoje, no MIS (Museu da Imagem e do Som), os 70 anos do designer visual Alexandre Wollner.

Autor de logotipos, marcas, letras e projetos de comunicação visual hoje inseparáveis de diversos produtos e indústrias brasileiros -Hering, Ultragaz, Papaiz, Eucatex, entre outras-, Wollner é um dos mais importantes designers visuais do país, é idealizador e fundador da Escola Superior de Desenho Industrial do Rio e integrou o movimento concretista.
Ele continua trabalhando em seu estúdio simples e arejado na zona leste de São Paulo. Divide os trabalhos maiores com um grupo de assistentes-seguidores, trocando arquivos por e-mail, e renova periodicamente a programação visual de várias empresas.

Folha – O que mudou em seu sistema de trabalho em mais de 40 anos de carreira?

Alexandre Wollner – Comecei na década de 50, só havia lápis, papel, tira-linhas, tipografia comum. Depois, nos anos 60, vieram a “letraset”, que começou a auxiliar a produção de layout, e a fotocomposição, nos anos 70, que acabou com o linotipo. Mesmo assim, trabalhava essencialmente com o papel.
Apesar de ter entrado nos 80 com computador, eu trabalho com papel. Ele dá dimensão, dá escala. É uma referência do processo criativo. Você enfrenta o papel branco. Vai adiando. Vai tomar um café, põe uma música, limpa a mesa, e o papel lá. Fui assim criado.
Uso o formato do papel, a mão e meu software -meu cérebro, minhas experiências, minha educação. Quando sei o que vou fazer, enfrento o computador. Tenho colegas que não querem nem saber do computador. É uma posição mais ou menos elitista. Tudo bem usar um auxiliar. Mas o computador é uma coisa que todo mundo pode fazer, a idéia não. A idéia é sua pessoa, seu conhecimento.

Folha – A demanda crescente de serviços e produtos, aumentada também pela expansão da Internet, e a proliferação de programas podem mudar as artes gráficas?

Wollner – Não muda nada. Não dá para misturar as coisas. Design é conceito. Design não pode servir às coisas momentâneas. Design é um processo de planejamento. Não é o mesmo que fazer merchandising, publicidade, coisas perecíveis e rápidas. Isso não tem nada a ver com design.
O acesso ao computador facilitou muito as coisas, as pessoas não sabem nem o que é tipografia. Isso não quer dizer que quem faz design para a Internet não tem qualidade. Hoje existe um processo novo, o de design de informação, que é onde a Internet entra. Mas é preciso ser muito cuidadoso, separar o que é design de informação e o que é fazer capinha de livro.

Folha – Qual a diferença efetiva?

Wollner – A diferença é que um designer não faz a capinha do livro. Ele faz o livro. O livro é um objeto que tem papel, processo de impressão, tipos. Existem livros de lazer, de informação, de estudo.

Cada um desses tem um tipo de formato e um tipo de letra que se devem usar. Não dá para fazer livro de estudo com papel brilhante e com letra sem serifa, por exemplo. O papel brilhante reflete, e a pessoa cansa e não consegue estudar muito tempo. As letras regulares, como Univers, Helvética, Futura, são monótonas, sem nuances, cansam os olhos. As do tipo Times Roman ou Garamond são mais adequadas para estudar porque são diferenciadas. Se você faz com letra não serifada, você lê como se ouvisse um piano com um cara treinando: você dorme.

O formato do livro também é importante. Se é para ler no metrô, na mesa, deitado na poltrona. É a mesma coisa de uma cadeira. Se eu faço uma cadeira para sala de jantar é um tipo de cadeira, não é a mesma do dentista. Isso é design. É todo esse projeto. Capa de revista é decoração, não é design. E decoração é um lixo. Decoração é o antidesign. A história do design vem desde a Revolução Industrial, em 1875, tirando a pata de leão das cadeiras. A estética não é a referência maior do design. É uma das consequências do design.

Folha – Que equipamento você usa?

Wollner – O mínimo adequado para poder trabalhar. Um Mac 7600, um scanner, uma impressora, uma conexão com outros computadores, uma conexão de Internet. Eu trabalho com grupos de designers que estão fora do estúdio. A gente se comunica por e-mail e passa os trabalhos. Não tenho mais a régua T, mas tenho papel e mesa para poder desenhar.

Folha – Em que projetos você está envolvido atualmente?

Wollner – Se fizesse design de butique ou capa de disco e revista,teria um leque enorme de clientes. Mas meu trabalho requer um tempo maior e não é barato. Trabalho com identidade visual de empresas, a estruturação de todos os meios de comunicação de uma empresa. Papel, cor, tipo, sinal, proporções. Tenho uma seleção de clientes que são grandes empresas, Klabin, Sherwin-Willians.

Folha – Com sua experiência à frente da Escola Superior de Design (Esdi) do Rio, que hoje tem o primeiro doutorado em design do Brasil, você acha que há um momento de efervescência do design? É um período propício?

Wollner – Não. Nós criamos a Esdi como missionários vindos de Ulm (Alemanha), na escola em que estudei, que foi feita com influência do modelo Bauhaus de escola. Mas a Esdi não dava enfoque ao artista, mas ao profissional que devia resolver os problemas dos componentes que os homens usam.

Formamos uma escola com esse idealismo de dar uma identidade visual para o Brasil no mundo todo. Mas isso leva tempo. O Bardi, que fez o Instituto de Arte Contemporânea, a escola inicial do design no Brasil, começou em 1949 e ficou só até 1953. Ele dizia: “Não adianta nada, porque o mercado não absorve os profissionais que estou formando”. E continua a mesma situação.

Folha – Não há campo para designers no Brasil?

Wollner – Design depende de indústria. A palavra design está muito expandida. Meu padeiro acha que é designer porque faz pão bonito. Tudo bem, sou contra a cartelização do profissional designer, não há porque cartelizar, mas o design é um processo complicado, de planejamento, de conceito.

Tenho de fazer uma sinalização de uma auto-estrada em que, se não leio uma informação num milésimo de segundo, posso morrer. Imagina se vem um designer que usa uma letra toda fragmentada: o cara bate e morre. Então tem de fazer uma letra para ser lida. Mas design depende muito da indústria, das condições econômicas de um país. O país tem pouca indústria.

Evento: Wollner 70 anos
Quando: hoje, às 20h30
Onde: Museu da Imagem e do Som (av. Europa, 158, tel. 011/852-9197)

Anúncios