Arquitetura: Brasileiros latinizam “BNH” alemão

Profissionais inauguram dia 19 projeto de remodelação de área habitacional na ex-Berlim Oriental

Isabel Simon/Divulgação

Vista do conjunto reformulado por Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci na ex-Berlim Oriental; as tintas foram criadas especialmente para tingir a textura de cal


MARA GAMA
do Universo Online

Na próxima sexta, dia 19, os arquitetos Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, do escritório paulistano Brasil Arquitetura, inauguram obra-relâmpago de “latinização” do Bairro Amarelo (Gelbes Viertel), em Hellesdorf, no norte da ex-Berlim Oriental.

Construído entre 1985 e 1992 com o sistema de pré-moldados de concreto, o Bairro Amarelo tem 3.200 apartamentos, em blocos de cinco ou seis andares, numa área de aproximadamente 1 km por 600 m, onde vivem cerca de 10 mil habitantes, em apartamentos de um, dois e três dormitórios.

Os moradores, em sua maioria técnicos de nível médio, queriam que seu conjunto habitacional tivesse uma identidade. Escolheram como tema a América Latina.

Coube à empresa administradora do conjunto, a WoGeHe, e ao IFS, um instituto de política urbanística da cidade de Berlim, organizar e bancar a remodelação, orçada em 90 milhões de marcos alemães (US$ 50 milhões).

Em janeiro de 1997, 56 escritórios de arquitetura da América Latina foram convidados a se inscrever e enviar currículos para a remodelação dos espaços coletivos e das fachadas do conjunto. O escritório Brasil Arquitetura foi selecionado.

“No dia seguinte ao da avaliação do júri, em março de 97, já havia um exército de 32 engenheiros com especializações variadas nos esperando para obter diretrizes e começar a trabalhar”, conta Fanucci.

Para latinizar o Bairro Amarelo, Ferraz e Fanucci projetaram sua intervenção em cinco tópicos: marcação das praças das entradas do conjunto com esculturas de artistas brasileiros; uso de três cores (amarelo, azul e rosa) em “barrados”, combinadas com o branco da cal; aplicação de muxarabis (treliçados de madeira); utilização de azulejos com tema indígena e paisagismo com referências latino-americanas.

Na maneira de pintar, com os barrados coloridos, nas cores e nos elementos, o projeto mostra influência ibérica e mourisca. São de origem árabe os azulejos, os muxarabis e a caiação.

Amílcar de Castro, Frans Krajcberg, Miguel dos Santos e Siron Franco foram os artistas convidados para marcar as entradas de acesso ao bairro e emprestar do suporte de suas obras elementos simbólicos ao caráter latino.

O ferro das esculturas de Castro em alusão ao subsolo, a madeira de Krajcberg para simbolizar a natureza, os totens de cerâmica de Miguel dos Santos para remeter aos ritos e o concreto de Franco em alusão às construções pré-colombianas.

As esculturas ainda não estão prontas. Terão uma outra inauguração em outubro de 98.

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Catálogos mostram caminho do Arte/Cidade

MARA GAMA
do Universo Online

Em texto que está no catálogo do terceiro Arte/Cidade (A Cidade e suas Histórias), com lançamento hoje, no Sesc, o crítico de arte Lorenzo Mammì sintetiza de forma irretocável o que considera a encruzilhada atual do projeto: “O problema do Arte/Cidade 3, enquanto exposição de arte, não é a falta de boas obras (há algumas, embora não muitas, e pelo menos duas bastante significativas): o problema é que, se as obras fossem outras, o significado da exposição seria mais ou menos o mesmo”.

Mammì observa que a marginalidade das obras dos artistas em relação ao “evento” pode ser a outra face do crescimento do próprio projeto, que tenderia a se impor sobre as iniciativas individuais, sufocando-as sob seu conjunto de significados e objetivos. O crítico ainda propõe outro olhar sobre o mesmo fenômeno: o processo de subordinação dos artistas à mostra seria análogo ao processo de transformação da cidade em metrópole industrial.

Para desenvolver ou contestar essas teses, nada melhor que os catálogos fartamente ilustrados e agora editados sobre as três edições do Arte/Cidade.

A documentação de todas as mostras, com fotos, fichas técnicas e depoimentos dos artistas, revela o caminho do Arte/Cidade cada vez mais engajado na perspectiva da intervenção urbana.

A trajetória partiu de uma etapa inicial, onde apenas um prédio, o do Matadouro, em ruínas, foi repartido entre os artistas -e aí, talvez, fosse mais eficiente como exposição de arte, mais circunscrito- até a terceira versão, em que um fragmento da cidade, degradado mas ainda articulado pela linha de trem, foi manipulado e se converteu num laboratório urbano.

A ampliação do recorte no desenvolvimento da idéia do Arte/Cidade impôs maior complexidade dos temas. Não por acaso, foi incorporada, na terceira versão do Arte/Cidade, a participação de arquitetos: ao aumentar a escala da intervenção, o Arte/Cidade chegou mais perto das questões vitais da arquitetura, do urbanismo, do transporte, da topografia, do planejamento e da comunicação visual em terreno urbano. Chegou mais perto da cidade, em outras palavras.

E revelou mais sobre o tema da cidade, tanto do ponto de vista da história da industrialização como da dinâmica da degradação. Nesse âmbito, é um tipo de evento sem nenhum similar. Também não por acaso, algumas das escolhas mais contundentes do projeto da adequação do espaço para a mostra de arte geraram polêmica: a sinalização visual e a inacessibilidade de alguns espaços. Não era só saudade da galeria: o laboratório urbano trouxe para um terreno mais doméstico o mesmo tipo de decisão que um projeto ou a ausência de projetos impõe sobre a cidade.

O quê: lançamento dos catálogos do Arte/Cidade (ed. Maca D’Água) e do vídeo “Arte/Cidade – A Cidade e Suas Histórias”, de Jurandyr Muller e Kiko Goifman
Quando: hoje, às 19h30
Onde: Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, tel. 3871-7700)
Quanto: o vídeo, R$ 15; a caixa com três catálogos, R$ 30 (não são vendidos separadamente)