Corpos de Rafael Assef

A arte continuamente volta sua força criativa e convida o público para ver, ler, criticar, documentar, seduzir, inventar, agredir e elogiar o corpo humano. Rafael Assef atua neste circuito. O artista cria imagens de um corpo possivelmente atual, contemporâneo. Sua exploração adota procedimento moderno. Fragmentação, justaposição, composição estão sempre concorrendo para a imagem final que se apresenta.

Não é à toa que os possíveis nus de Assef se chamam, por oposição, “Roupas”. O artista trabalha com a tensão entre o que é natural e não-natural, mas parece assumir, de antemão, que fala a partir da arte, da cultura, da moda, da história.

A manipulação é explícita. Manipulação da fotografia -pela cor, pela escala, pela ampliação e pelos recortes-, e manipulação dos “modelos”, pelas poses, pela cor aplicada e, mais uma vez, pelos cortes.

Na série “Roupas”, o enquadramento permite ver contornos dos braços, pernas, tronco, dorso. Cabeças e sexo não entram no jogo. O artista trabalha a cor desbotando a tonalidade da pele. Azuladas e bem apoiadas, as imagens evocam poses clássicas ou renascentistas. É possível entrever até o David de Michelângelo, num dos dipticos.

O artista prossegue. Usa como suporte um corpo de onde já retirou a cor, recortou extremidades, excluiu genitais e faz ainda uma outra intervenção, sulcando na pele os recortes dos “moldes” de costura. A cava das mangas, o vinco das pernas das calças. A roupa, infiltrada como uma segunda natureza, não provoca choque. Não há drama.

O sangue deste corpo não sangra, não pinga. É um corpo que aceita a manipulação sem oferecer resistência.

Abrem-se pequenas fendas entre o que é interno e o que é externo, a sempre presente obsessão moderna. Mas, entre os dois universos, o tempo parece congelado. Não há comunicação ou contágio. Este corpo -moderno? idealizado? escravo? desnaturado?- não sangra.

Mara Gama, junho de 2003

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