Cidade inglesa terá 80% da energia elétrica gerada por restos de comida

A cidade de Keynsham, na Inglaterra, vai reduzir dois grandes problemas urbanos com uma única solução local. A partir do primeiro semestre de 2017, 80% da energia elétrica necessária para mover a comunidade de 16 mil moradores virá do processamento de restos de comida. Com o uso de combustível renovável e não-fóssil, modelo é mais ecológico e econômico.

Uma nova usina que está sendo construída usa o processo de digestão anaeróbica (sem ar). Nesse sistema, o lixo orgânico –biomassa– é quebrado por bactérias e produz metano. O metano é captado e queimado para gerar energia.

O resíduo do processo é extraído e vira um fertilizante para agricultura, o digestate, diferente do composto orgânico resultante da compostagem aeróbica (com ar). Além de evitar o aterramento dos resíduos orgânicos, o que consome terreno e polui o ambiente, o processo todo gera recursos, reduz a pegada de carbono e promete economizar verbas em várias linhas do orçamento municipal.

A digestão anaeróbica vem sendo usada na geração de energia desde o fim do século 19 no Reino Unido, quando o esgoto doméstico processado começou a alimentar a iluminação pública em algumas cidades. Hoje, há cerca de cem usinas que usam o processo no país. E 66% das centrais de tratamento de água usam também o sistema para depurar a água servida.

O que está sendo considerado promissor na usina de Keynsham é o modelo que une tratamento, geração e distribuição local, com potencial para servir individualmente cidades de variados portes, segundo reportagem publicada no site CityLab.

Com o tratamento local dos resíduos orgânicos, se evita o transporte para grandes centrais. Com a distribuição local de energia, há menos custos na transmissão e armazenamento, o que evita investimento em infraestrutura física e deve resultar em queda no custo final para o consumidor.

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Novo parque de Floripa tem horta comunitária e vai ensinar a compostar

Nada melhor que o ambiente de um parque para compreender o percurso natural dos alimentos. Para incentivar a agricultura urbana, difundir o aproveitamento dos resíduos orgânicos e, com isso, evitar a sua disposição em aterro sanitário, o novo Parque Jardim Botânico de Florianópolis, aberto em 25 de setembro, tem sua horta e vai ensinar a compostar.

As oficinas de compostagem para o público devem começar em 5 de novembro. O plano é que sejam repetidas mensalmente. Já estão previstas nove oficinas. Elas fazem parte de um convênio da empresa que administra a coleta da capital catarinense, a Comcap (Companhia Melhoramentos da Capital), e do Cepagro (Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo). A Cepagro virou referência ambiental por causa da sua Revolução dos Baldinhos, projeto de compostagem comunitária realizado desde 2009.

No parque, foi criado um espaço didático que mostra soluções possíveis de tratamento de resíduos orgânicos. Ali estão vários modelos de composteiras residenciais e soluções para maior escala, como a técnica que é usada no pátio de compostagem da Lapa, em São Paulo, e que foi desenvolvida pelo Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina.

Uma primeira oficina foi feita para funcionários responsáveis pela limpeza pública, técnicos das secretarias de Habitação, Saneamento e da Fatma (Fundação do Meio Ambiente), no último dia 13 de outubro. Mudar os hábitos de quem trabalha na administração pública é fundamental para criar uma rede de apoio para mudanças de comportamento mais amplas.

Segundo cálculos do Cepagro, cada habitante de Florianópolis produz em média 1,1 quilo de resíduo por dia, sendo pouco mais de 50% de matéria orgânica. Em um ano, são gastos R$ 25 milhões para transportar esses resíduos aterrar no aterro sanitário de Biguaçu.

Os cerca de R$ 13 milhões gastos por ano para aterrar matéria orgânica poderiam ser economizados se esse material fosse transformado em adubo. O adubo serviria para a recuperação do solo urbano e a criação de hortas comunitárias orgânicas sem o uso de agrotóxicos. Desviar os resíduos orgânicos do aterro é política pública que atende ao Plano Municipal de Coleta Seletiva da cidade e à PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos).

O Parque Jardim Botânico de Florianópolis quer ser uma vitrine de agricultura urbana. Instalado numa área de 19 hectares que se conecta ao manguezal do Itacorubi, na rodovia Admar Gonzaga, ele tem o primeiro Posto de Entrega Voluntária (PEV) de resíduos orgânicos da cidade e uma horta colaborativa, plantada em mutirão, com mais de 140 voluntários, no dia 20 de agosto.

Na primeira colheita da horta, foram retirados 2 mil pés de rúcula e rabanete. Existe a ideia de criar também um clube da horta, com canteiros fornecidos a grupos e famílias, com o compromisso de levarem os resíduos orgânicos para compostar no parque.

A horta usa o sistema sintrópico e consorciado, de compartilhamento de plantio e sucessão de plantas que vão corrigindo o solo enquanto produzem, preparando para a próxima cultura. O sistema sintrópico foi difundido por Ernst Götsch, pesquisador suíço que migrou para o Brasil no começo da década de 1980 e implantou uma floresta no sul da Bahia.

O convênio de cooperação técnica entre a Cepagro e a Comcap prevê também a ampliação da projeto de compostagem comunitária Revolução os Baldinhos para outros bairros da cidade, ainda sem um cronograma definido.

Apesar de ter se tornado referência, a Revolução dos Baldinhos ainda precisa de um espaço para desenvolver suas atividades e de uma formalização para ser remunerada pelo serviço de destinação dos orgânicos que já vem realizando.

“Já temos um projeto técnico para esse espaço, mas precisamos que o município destine uma área para a criação de uma Ecopraça, com pomar, horta, espaço para compostagem e educação ambiental” diz Marcos José de Abreu, o Marquito, agrônomo idealizador do projeto e agora vereador, eleito pelo PSOL como o segundo mais votado da cidade. “Com a Ecopraça vamos poder colher aproximadamente 9 toneladas de orgânicos por dia, e atingir todo o bairro de Monte Cristo”, planeja.

Para ser remunerado pelo serviço de destinação de orgânicos, o projeto precisa de um instrumento jurídico, que já está garantido pela PNRS e pela Lei do Saneamento. Hoje em dia, a iniciativa se sustenta com verbas de prêmios e projetos ambientais. A Revolução dos Baldinhos comemora agora as suas primeiros mil toneladas compostadas.

O Parque Jardim Botânico de Florianópolis fica na Rodovia Admar Gonzaga, 890, no Itacorubi, e fica aberto de quinta a domingo, das 7h30 às 18h.