A arte de fazer nada virar alguma coisa – entrevista com Maria Cecília Loschiavo dos Santos

 

Dois dos pilares da transição para a economia verde estão no horizonte da filósofa Maria Cecilia Loschiavo dos Santos: a gestão responsável do lixo e a inclusão social.

Autora de um dos mais importantes estudos de história do design do país -“Móvel Moderno no Brasil” (1995, Edusp)-, ela integra o Centro Multidisciplinar de Estudos em Resíduos Sólidos da Universidade de São Paulo.

Ao estudar o descarte e o reuso do mobiliário no ambiente urbano, ela entendeu que a cadeia da reciclagem no país extrapola o ciclo estritamente ambiental: é fundamental na inclusão social de um contingente de pessoas em situação de miséria nas grandes cidades.

Maria Cecilia considera que a transformação do lixo em matéria, da desvantagem em vantagem, é parte da cultura do design brasileiro. Para ela, a nova política sobre resíduos é a “lei do design”.

Folha – Como a sra. começou a estudar o lixo?

Maria Cecilia Loschiavo dos Santos – Foi pelo mobiliário que cheguei ao amplo tema da sustentabilidade. Após terminar meu trabalho [que resultou no livro citado], em 1993, observei o mobiliário moderno sendo descartado no espaço urbano. Nas casinhas de guardas privados de bairros nobres de São Paulo via um assento de uma cadeira dinamarquesa encima de um caixote de frutas e tentava entender essa recolocação. Passei a prestar atenção nesse material junto das pessoas que viviam nas ruas. E o descarte do mobiliário me levou ao descarte de seres humanos. O que me cabia, diante desse intrigante fenômeno, era compreender o habitat desta população.

Por que a sra. considera que a nova política de resíduos é a “lei do design”?

A política nacional não menciona a palavra design, mas ela trata do projeto, do consumo, do descarte, enfim, dos produtos que o design produz. A nova lei oferece uma oportunidade imensa para o design brasileiro. Em dezembro passado, ao apresentar a obra da Lina Bardi (1914-1992) numa palestra em Nova York, consegui evidenciar que essa filosofia da transformação da desvantagem em vantagem é parte da cultura vernacular brasileira, da cultura material, do nosso design, da capacidade de superação que se manifesta naqueles objetos que a Lina recolheu e que expôs. Isso está também na raiz da mentalidade dos catadores, a sabedoria dessa população que, numa situação de miséria absoluta, transforma nada em alguma coisa.

Como a universidade está contribuindo com esse assunto?

A universidade tem o que há de mais importante, que é a vontade dos alunos, o engajamento nos temas da sustentabilidade. Em 2011, a USP criou o primeiro Centro de Estudos Multidisciplinares em Resíduos Sólidos, que trará propostas e possibilidades tecnológicas na geração de patentes para trabalhar com esses materiais. Estamos compartilhando os resultados do nosso trabalho para criar bancos de dados sobre resíduos no Brasil.

Do ponto de vista político, o que falta?

Já temos massa crítica científica e tecnológica de altíssimo nível. Mas temos que gerar patentes e estabelecer um diálogo com os industriais. No setor farmacêutico, nós quebramos patentes importantes para a saúde da população. Acredito que, no setor dos resíduos, vamos conseguir criar esse diálogo com as decisões industriais, da universidade, da política. Só que, na base disso tudo está o cidadão, com seu comportamento diário. Do ato da compra ao ato do descarte. E, nessa cadeia, a dona de casa tem um papel fundamental.

Qual é melhor forma de tratar os resíduos?

Não há uma resolução única. Quando a gente pensa a reciclagem do resíduo, pensa também em um componente comportamental, psicológico, antropológico, da relação do ser humano com seus bens. É necessário o envolvimento de cada cidadão na valorização do resíduo, no reconhecimento de que ele tem valor econômico. Um outro ponto é a prevenção do resíduo na fonte. Você tem de começar a comprar produtos no supermercado que reduzam o resíduo na fonte.

É factível extinguir os lixões no Brasil até 2014?

O volume de recursos que os resíduos movimentam é muito grande. Há interesses enormes. No Brasil ainda há pessoas em situação de miséria obrigadas a recorrer aos lixões para alimentar suas famílias. A meta “sem lixões em 2014” é uma decisão correta do ponto de vista sanitário, ambiental e da dignidade humana. Vai colocar o Brasil em outro patamar sanitário. Mas não adianta só erradicar os lixões. É preciso que haja investimento em infraestrutura urbana nos mais de 5.000 municípios, para tratamento de seus resíduos.

A incineração deve ser adotada?

É um tema muito polêmico dentro da lei. Em alguns países, por causa do perfil energético, a incineração é necessária, como é o caso da Suécia, porque eles não têm outras fontes de energia. Mas há alternativas a ela. Há filtros, há uma série de tecnologias disponíveis hoje.

Como distinguir um projeto de design sustentável de um não sustentável?

Precisamos nos despojar da visão glamorizada, fetichizada dessas duas palavras. Há parâmetros. Existe a pegada ecológica, a hídrica, a energética. Há cálculos e teoria para isso. Mas tudo tem de estar associado a uma consciência, porque trabalhar com reciclagem e sustentabilidade tem a ver diretamente com uma reciclagem de nós mesmos.

 

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