Arte Aplicada: MAM-SP exibe o design dos Campana

Irmãos Fernando e Humberto abrem nova área de atuação do museu, que quer formar coleção

Divulgação

“Cadeira Favela” (1991), em madeira, obra de Humberto e Fernando Campana, em exposição no MAM-SP

do Universo Online

O Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo abre espaço para o design.

Para introduzir o tema no museu e começar a formar uma coleção própria, o curador-chefe do museu, Thadeu Chiarelli, escolheu a produção da dupla Humberto e Fernando Campana para a exposição que começa hoje.

Não se trata de uma mostra cronológica. A idéia da exposição é que as obras do MAM “recebam” simbolicamente os objetos e que as fronteiras entre design e arte estejam em questão, organizadas numa espécie de linha gradativa.

Por isso, além dos 30 objetos dos irmãos Campana, estarão expostas obras de arte contemporânea do acervo de artistas como Ana Tavares, Waltércio Caldas, Cildo Meirelles, Nazaré Pacheco e Carlos Zilio.

“Os Campana foram escolhidos porque desde o início de sua atividade eles têm um discurso próximo da arte”, diz Chiarelli.

A dupla de designers concorda com a observação.

“Nosso discurso sempre foi estético”, diz Humberto, que começou como escultor.

“No Brasil, nossas referências culturais vêm muito mais das artes plásticas, porque praticamente não há exposições de design”, diz Fernando.

“Além disso, os Campana estão em momento especial: sua produção, que sempre teve traços muito autorais, atinge o mercado internacional, com grande serialização. A mostra do MAM flagra esse momento”, completa.

Design/arte

Do ponto de vista espacial, são duas mostras -“Entre o Design e a Arte: Irmãos Campana” e “Entre a Arte e o Design: Coleção MAM”- divididas em quatro salas.

Na primeira sala estarão peças mais recentes dos designers, em que há maior preocupação com a produção em série. Um making of em vídeo da poltrona Vermelha (produzida atualmente pela empresa italiana Edra/Mazzei) reforça esse aspecto da produção.

“A idéia é já começar com choque pela diferença”, diz Chiarelli. “O museu recebe cerca de 14 mil visitas por mês, de um público muito heterogêneo, mas que está acostumado a ver no MAM exposições de arte. Por isso, vamos até usar mais de um exemplar do mesmo objeto, para frisar sua diferença em relação às obras de arte”, diz o curador.

Na segunda sala, serão exibidas obras mais antigas, algumas peças únicas e, chegando até obras da primeira exposição, os “desconfortáveis”, em que os próprios designers estavam brincando com o conceito de utilidade.

Falsos utilitários

Na sequência, vêm as duas salas da mostra “Entre a Arte e o Design: Coleção MAM”.
Numa primeira, as obras que se utilizam de objetos de uso cotidiano, como os trabalhos “Escada” e “Container” , de Ana Maria Tavares, a banheira “Marat”, de Daniel Acosta, e o “Colar”, de Nazaré Pacheco, entre outras.

Na segunda sala, obras que se “apossam” completamente de objetos. Obras de Farnese de Andrade, Carlos Zilio e a “Inmensa”, de Cildo Meirelles, integram esta última sala.

(MARA GAMA)

Mostra: Entre o Design e a Arte: Irmãos Campana Mostra: Entre a Arte e o Design: Coleção MAM Vernissage: hoje, às 19h Quando: de 31 de março a 7 de maio (terça, quarta e sexta, das 12h às 18h, quinta, das 12h às 22h, e sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h) Onde: Museu de Arte Moderna (parque Ibirapuera, portão 3, tel. 0/xx/11/549-9688) Quanto: R$ 5

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Arquitetura: Obra de Reidy ganha revisão crítica em livro

MARA GAMA
Gerente Geral de Criação do UOL

Referências fundamentais da paisagem da cidade do Rio -como as formas elegantes e supreendentes do MAM (Museu de Arte Moderna) e do Parque do Flamengo- e os conjuntos habitacionais sinuosos de Pedregulho e do Minhocão (Marquês de São Vicente), em São Paulo, saíram da prancheta de Affonso Eduardo Reidy (1909-1964).

Reidy fica mais perto do público com o livro fartamente ilustrado que o Instituto Lina Bo e P.M. Bardi relança hoje em São Paulo.

Formado pela Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) no Rio, Reidy iniciou sua carreira como urbanista. Foi assistente do urbanista francês Alfred Agache no projeto de Plano Diretor do então Distrito Federal, de 1929 a 1931. Em 1935, foi convidado para participar da equipe que realizou de fato o projeto, encabeçada por Lucio Costa e tendo como colaborador o arquiteto suíço Le Corbusier. Reidy trabalhou ainda com Corbusier no projeto para a Cidade Universitária, em 1936.

O conjunto de Pedregulho, em São Cristóvão, ganhador da 1º Bienal de São Paulo, em 1953, traz concepção pioneira na experiência social da habitação.

Além de uma biografia cuidadosa e da recuperação dos textos de Reidy, compõem o perfil do arquiteto, no livro, os depoimentos da companheira e colaboradora de Reidy, a engenheira Carmen Portinho, do paisagista Roberto Burle Marx e do arquiteto Francisco Bolonha.

Designers têm o que ver

Divulgação

Salva-telas UOL, de Mara Gama e William Gaertner, classificado na 5ª Bienal do Design Gráfico

Produção gráfica nacional é o destaque entre os eventos que começam hoje em SP, com destaque para a 5ª Bienal

CELSO FIORAVANTE
da Reportagem Local

Os designers, arquitetos, artistas e aficionados em geral terão que se dividir em dois (ou mais) caso queiram prestigiar a avalanche de eventos que começa hoje na cidade. São mostras da produção gráfica nacional, exposição de produtos “made in Brazil” e workshops. Dá ainda para se inscrever em um concurso internacional, comprar um livro ou se programar para passeios no final deste mês.

O evento mais representativo da produção gráfica nacional acontece a partir das 20h no Sesc Pompéia. Trata-se da 5ª edição da Bienal do Design Gráfico, realizada pela ADG (Associação dos Designers Gráficos) e pelo próprio Sesc, que apresentará 259 trabalhos nos mais diversos tipos de mídia: cartazes de eventos culturais, embalagens, livros, CDs, projetos de sinalização e programação visual de empresas, vinhetas televisivas, CD-ROMs e websites.

A própria montagem da mostra sofreu cuidados gráficos que valorizam o material exibido. Um deles foi a seleção de frases poéticas, mas pragmáticas, criadas pelo pesquisador Francisco Homem de Mello para a abertura dos módulos da mostra. Para os projetos de sinalização, Mello escreveu: “Quando o projeto é de sinalização, o desafio é indicar a saída sem mandar ninguém embora”.

O espectro da mostra é amplo e apresenta desde projetos embrionários para a criação de uma estratégia visual (como uma nova opção de família tipográfica) até produtos finalizados, como um CD ou o projeto de sinalização de um espaço público, como o do shopping Barra Square, de Ana Luísa Escorel, que recupera influências da escultura construtiva brasileira em uma sinalização em chapas de metal dobradas.

No caso das famílias tipográficas, que poderiam ser vistas como o bê-á-bá do design gráfico, um dos destaques é a família Tupi, da designer Patrícia Fonseca Larocca, inspirada na pintura corporal dos índios tupis e na família tipográfica Futura.

No mesmo quesito, vale a pena ainda reparar na Genú Stencil, de Thaís Salles da Costa Lima, uma família bastante experimental, que reúne em uma mesma letra linhas retas, curvas, cortes e vazios tipográficos, mas que consegue manter uma alta legibilidade.

Parece saudosismo falar em famílias tipográficas em tempos de websites, mas são cuidados como a escolha do corpo certo que fazem que um site se diferencie na overdose de informação visual que a Internet oferece hoje.

Mostra: 5ª Bienal de Design Gráfico Onde: Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, tel. 0/ xx/11/3871-7700) Vernissage: hoje, às 20h Quando: de terça a sábado, das 10h às 21h; domingos e feriados, das 10h às 20h Quanto: entrada franca Patrocínio: Bureau Digital Bandeirante, Litokromia, Pancron, Postcript e Suzano Papel e Celulose

Design: A máquina busca o belo

MARA GAMA
Gerente-geral de Criação do UOL

Lançado há dois anos nos EUA, “A Beleza das Máquinas”, de David Gelernter, usa a história recente da indústria de computadores para propor que a busca do belo orienta o desenvolvimento científico e tecnológico.

Gelernter, professor de ciência da computação em Yale, colunista de jornais, autor de vários livros e de um projeto da linguagem de computação, foi também uma das vítimas do Unabomber.

Em junho de 1993, o professor abriu uma das cartas-bombas enviadas pelo terrorista e se feriu gravemente. Ainda traz sequelas na mão e no olho direitos. Em 1997, lançou “Drawing Life”, que conta o episódio.

“A Beleza das Máquinas” se apóia em duas teses. A mais importante é a idéia de que a beleza da máquina é o motor da tecnologia e da ciência e que ela foi crucial para o desenvolvimento da computação. Mas o que é beleza da máquina? Para Gelernter, é o “casamento” de eficiência e simplicidade. Como reconhecê-la? “Prever a forma que parece inevitável, criar a “ilusão da inevitabilidade” -a impressão de que estamos olhando para a materialização genuína da ciência ou da engenharia- é uma arte, pura e simplesmente, esteja você projetando represas ou aspiradores de pó.”

A outra tese do livro é a idéia de que a beleza da máquina “”incomoda”. Para Gelernter, há uma resistência quase generalizada contra a aceitação da beleza como valor essencial dos objetos, por razões ideológicas e culturais.

Gelernter talvez tenha considerado a formulação “ben trovata” e a ela se apega. Não dá para dizer que é verdade ou mentira, mas isso não compromete de modo algum a leitura do livro. O que importa é que o autor usa essa tese para avacalhar, com extremo bom humor e conhecimento de causa, a formação de cientistas e tecnólogos, a indústria de software e hardware, programadores, usuários e criadores da indústria da computação, os computadores beges e sem graça, os programas chatos e complicados.

Há também, para Gelernter, um grau superior dessa união de eficiência e simplicidade, a “beleza profunda”, atingida quando se unem os mecanismos da ciência e da engenharia. Em outras palavras, quando o projeto parte de uma concepção científica por si só brilhante e se materializa em objeto ou tecnologia também simples e eficiente. Para exemplificar esses conceitos, Gelernter usa a história de clássicos do desenho industrial e da engenharia, começando pela máquina copiadora desenhada por Raymond Loewy, em 1929, objeto que esteve em linha de produção por 40 anos, passando pela cadeira Cesca, de Marcel Breuer, pela locomotiva a vapor J3, criada por Henry Dreyfuss, chegando à teoria física da supersimetria.
A visão da história do desenvolvimento tecnológico pelo viés estético não é novidade, embora o autor consiga ainda aí propor um olhar diferenciado.

Mas é sobretudo nas passagens sobre a gênese do conceito e da tecnologia que permitiu o aparecimento do “desktop” que o texto de Gelernter torna-se mais interessante e rico.

Uma pena que o livro tenha sido escrito antes da popularização dos novos Macs, que pontuaram, de alguma forma, a “frota” internacional de computadores, senão com “beleza profunda”, pelo menos com um pouco de graça. Dá vontade de saber como seria o livro se tivesse sido escrito depois que o estilo i-Mac superou os computadores e chegou até os ferros de passar roupa, que exibem agora seus mecanismos sob uma capa transparente e colorida.

Livro: A Beleza das Máquinas
Autor: David Gelernter Tradutora: Laura Neves Editora: Rocco Quanto: R$ 26 (172 págs.)