Fotografia: Figura contemporânea dá as caras

“Sob Medida”, no Espaço Porto Seguro, mostra manipulação da foto como meio de expressão plástica

Reprodução

Detalhe de obra da artista plástica Keila Alaver

MARA GAMA
Gerente geral de Criação do UOL

A coletiva que começa hoje no Espaço Porto Seguro de Fotografia não é uma mostra tradicional de fotos. “Sob Medida” traz obras que manipulam a fotografia ou procedimentos de impressão fotográfica na expressão plástica.

São dez jovens artistas, a maior parte deles estudantes ou ex-estudantes de artes plásticas. Apesar de enfoques diferentes, bebem nas águas da história da fotografia, na fotografia experimental ou fazem uso dos procedimentos eletrônicos do tratamento de imagens. Ou seja, não há nenhuma incursão “ingênua” na fotografia.

O tema da mostra é a figura, mas não há um só retrato realista, nem sequer uma fotografia documental. “Não quis fazer uma mostra sobre identidade, indivíduo, e sim sobre as novas maneiras de se ver a figura”, diz o curador Eduardo Brandão, também fotógrafo, professor e editor de Fotografia da Revista da Folha.

Talvez por isso, Brandão tenha evitado fazer uma amarração narrativa entre as obras. Sua intervenção só se explicita na seleção e na disposição das peças, formando alguns diálogos pontuais. Para iniciar a visita, o público só terá como prefácio a reprodução fotográfica do verbete “Figura”, extraído do dicionário da Academia Brasileira de Letras.

“A exposição é uma panorâmica, sem enfocar um ou outro estilo ou conceito. Mostra como esses jovens artistas estão trabalhando com a imagem hoje”, diz Brandão.

Talvez um dos trabalhos mais surpreendentes seja o da artista plástica Keila Alaver. Keila empresta da fotografia o esqueleto, a verossimilhança, mas para conseguir encenar as figuras teatrais que lhe interessam. Recorta os contornos de corpos fotografados e fragmentados, retirando deles as vísceras, o sexo e os rostos, para preenchê-los com sacos “esvaziados”. Consegue, assim, sair da bidimensionalidade da fotografia para mostrar espaços vazios.

Apesar de usar um mesmo expediente de Keila -recortando as dimensões de seu corpo em escala natural-, Clarissa Tossin imprime no recorte imagens de dobras e mais dobras da pele, em ampliações e fusões que tecem uma nova pele muito movimentada. A nova “pele” evoca uma extensão multiplicada da superfície do corpo. Mais uma vez, a profundidade da imagem se dá fora do campo estrito da fotografia. Mostra-se no recorte das imagens, na justaposição, nas ampliações e na tonalidade.

O trabalho da artista Del Pilar Sallum amplia detalhe da investigação de Clarissa. Del Pilar manipulada fotos de dobras de peles e mucosas, mas o resultado são figuras únicas, fortes, que instauram a curiosidade e a dúvida.

Num outro registro, Rafael Assef desmaia as cores de corpos em cortes bem mais estilizados, próximos da fotografia de moda, mas citando com delicadeza fotografias clássicas. É bem mais próximo do registro de época: lá estão os piercings, as poses e o clima de uma determinada geração.

Já Amilcar Packer experimenta a cor em grandes contrastes. Deixa ver na fotografia os rastros do vídeo que a originam. Packer se grava em movimento, com câmera de vídeo, depois escolhe um “frame”, distorce as cores e amplia as imagens estourando o “pixel” (e não mais o grão).

Em sua primeira exposição, Ricardo Carioba mostra o bem cuidado trabalho com a imagem eletrônica, chegando em resultado próximo da pintura, com abordagem de pintura. Seu trabalho nasce de cores e formas obtidas em programa gráfico, que ampliadas revelam figuras insuspeitadas.

Edouard Fraipont também se aproxima da pintura, mas por outro caminho. Numa das obras abre o obturador, se ilumina -ele é o personagem retratado- com uma lanterna e vai captando a luz como cor.

A artista Camila Mesquita também se coloca em suas “fotos”. Usa como base imagens retiradas da pintura. Atua na revelação com inserção de grafismos e imprime sua sombra como imagem.

O artista Odires Mlászho apresenta a série “Retratos Possuídos”. Mlászho aplica uma máscara de acetato -uma figura masculina- sobre rotogravuras de quadros do pintor neoclássico David (1748-1825). Depois, retira com fita durex o pigmento do papel que sobra da máscara, numa técnica que batizou de “descolagem”. Em seguida, amplia as imagens. A série traz diferentes tonalidades, mas sempre a impressão de uma fusão de tempos.

A artista Sandra Cinto mostra uso mais “clássico” da fotografia em artes plásticas. Num dos trabalhos, uma foto mostra uma figura deitada, dormindo, em duas partes separadas e, no meio, uma prateleira de livros. Sandra leva para a montagem as mesmas referências de sua pintura -a memória e as paisagens infinitas.

Mostra: Sob Medida – a Figura na Fotografia Contemporânea
Onde: Espaço Porto Seguro de Fotografia (al. Barão de Piracicaba, 740, Campos Elíseos, tel. 3366-5037)
Quando: a partir de hoje; de seg. a sex., das 10h às 18h; sáb., das 9h às 14h; até 7 de novembro

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