Museu fará dicionário da casa brasileira

MARA GAMA
EDITORA-ADJUNTA DA ILUSTRADA

Cerca de 28 mil fichas com descrição de equipamentos domésticos e usos e costumes nos séculos 18, 19 e 20 estão sendo recuperadas no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo.

O trabalho de indexação, informatização e edição deve consumir ainda um ano. Ao final deste período, o museu pretende ver publicado o mais completo dicionário do mobiliário brasileiro.

A pesquisa começou a ser realizada pelo historiador paulista Ernani da Silva Bruno, há mais de 20 anos. As fichas eram para uso interno do museu. Foram baseadas em crônicas e relatos de três séculos. Os verbetes contêm citações, descrições e definições dos objetos ao longo da história, recolhidas por dez pesquisadoras chefiadas por Silva Bruno.

Já trabalham com o material duas pessoas -uma delas, Maria de Lourdes Julião, trabalhou na fase de pesquisa e foi localizada agora para a recuperação. É auxiliada por uma biblioteconomista que trabalha sem remuneração, por falta de verba do museu.

O dicionário é o projeto mais ambicioso do Museu da Casa Brasileira, que sobrevive hoje graças a uma sociedade de amigos criada há dois anos.

“Quero retomar a idéia original do museu, que é condensar os elementos da vida brasileira através da casa”, afirma a arquiteta Marlene Milan Acayaba, 45, a nova diretora. “É um trabalho que frutifica, faz surgir outras pesquisas, e esta é a função mais importante de um museu”, diz.

Dois meses depois de assumir, Marlene está às voltas com cupins, caminhões de objetos sem valor, fios e calhas danificados.

A “Casa” está caindo aos pedaços, no ano em que completa 50 anos de construção e 25 anos como museu.

Localizada num lote de 7.200 metros quadrados num dos pontos mais caros de São Paulo, a av. Faria Lima, onde o metro quadrado de terreno não custa menos de R$ 2.000, sobrevive do aluguel de seus salões e de doações.

A mansão foi construída para Fábio Prado, prefeito de São Paulo de 1934 a 1938. Em 1968, foi doada à Fundação Padre Anchieta e, em 1971, cedida à Secretaria do Estado da Cultura em comodato. Segundo Marlene, não há verbas para manutenção e obras de reparo desde que a administração pertence à secretaria.

O acervo, constituído principalmente de doações, está em exposição há duas semanas. Só foi possível abri-lo ao público depois da primeira parte da faxina que Marlene decretou ao assumir a direção da “Casa”.

“De 900 objetos tombados, destombei 360 que não tinham nenhum valor para este tipo de museu”, diz. Além disso, está sendo reformada uma ala do museu para abrigar nova reserva técnica (ambiente para guardar parte do acervo não-exposto).

Desde que chegou ao museu, Marlene conseguiu despachar para as oficinas do governo sete caminhões de móveis “patrimoniados” (que pertencem ao Estado) estragados que ocupavam seus depósitos: mesas, cadeiras e armários de escritório. Tudo para liberar espaço para o conteúdo de um container de móveis antigos que esperavam trancafiados.

A biblioteca, que durante muito tempo serviu de auditório, agora está trancada, para evitar “evasão” de seus livros: “Só vamos organizá-la quando acabarmos o processo de destombamento e exposição do acervo”, diz.

Todo o trabalho de estrutura para começar a atuar como instituição promotora de publicações e exposições deve consumir um ano e, segundo Marlene, R$ 2 milhões.

Apesar da faxina, o museu se mantém em atividade. O aluguel dos salões e do terraço -cerca de R$ 4.500 por evento- reverte para a manutenção. Também o calendário de exposições é bastante concorrido.

“Hoje em dia não posso me atrever a fazer curadoria. Recebo mostras prontas e já pagas. O aluguel das salas vai para um programa mínimo de manutenção do museu”, diz. A mostra de objetos da casa de design italiano Alessi levou cerca de 500 pessoas ao museu a cada fim-de-semana nos meses de abril e maio.

A saída para a falta de verbas, para Marlene, está no aumento do caixa da sociedade de amigos e na obtenção de patrocínio das empresas. “Estamos tentando trazer os industriais para o museu. Antes de inventar projetos mais audaciosos, tenho que salvar o patrimônio que está aqui”, diz a diretora.

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Artistas criam móveis e objetos com papel

MARA GAMA
DA REDAÇÃO

O espaço de exposições “Café Design”, da loja de móveis Tok Stok, abre, na quarta-feira, dia 21, uma mostra só de trabalhos em papel. Olavo Aranha, Edison Barone e Annette Berliner exibem móveis, acessórios e utensílios.

O trabalho de Annette Berliner, 33, é artesanato assumido. Ela usa jornal, cola e tintas para fazer mesas, molduras, vasos, porta-revistas, aparadores. “Meus trabalhos são como esculturas. Só que são úteis também”, diz. Annette chega a demorar um mês inteiro para concluir um item de sua coleção. “Eu não poderia industrializá-las. São peças únicas”, afirma.

O sistema artesanal é evidente na boa qualidade do trabalho, mas restringe o mercado. “Não posso me comprometer com grandes lojas, porque não tenho estrutura para fazer entregas em quantidade”, conta Annette. O cuidado com cada peça se reflete no preço. Os objetos da mostra do “Café Design” vão de R$ 300 a R$ 1.950. A “Mesa-galinha” custa R$ 780.

Annette é um dos cinco artistas brasileiros que entraram no Anuário de Design de 1996 devido à participação no Salão Internacional do Móvel de Milão, em abril. O Anuário é uma espécie de visto para o mercado internacional.

A artista já vendeu seus produtos para lojas em Bruxelas, Trieste e Paris.(MG)

Exposição: Papel
Onde: Café Design Tok Stok (r. Eusébio Matoso, nº 1.231, Pinheiros)
Quando: abertura na quarta-feira, às 20h

Portoghese terá mostra no mês de setembro

MARA GAMA
DA REDAÇÃO

Uma exposição do arquiteto italiano Paolo Portoghese é a maior atração internacional do Museu da Casa Brasileira para o segundo semestre, em setembro.

Além disso, estão previstas uma mostra do arquiteto mexicano Abraham Zabludowsky e a exposição Jovens Arquitetos, com premiação e debates, realizada em conjunto com o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB).

O museu planeja também iniciar um curso de paisagismo, com duração de um ano, com a paisagista Rosa Klias. O trabalho final seria a recuperação do jardim da Casa.

No final de outubro, acontece a 9ª versão do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira, o mais importante para os profissionais da área no Brasil.

O concurso é feito anualmente, desde 1986, em seis categorias: mobiliário residencial; equipamentos domésticos; equipamentos de iluminação; têxteis e revestimentos; eletro-eletrônicos e equipamentos complementares de construção e acabamento de moradias. As inscrições vão de 1º a 29 de setembro. Na inscrição, deve ser apresentada a peça industrializada ou um protótipo.

Já foi lançado o concurso para o cartaz do prêmio, para profissionais de artes gráficas, arquitetura e design. Os trabalhos devem ser entregues até 4 de agosto na sede do museu (av. Brigadeiro Faria Lima, 774, São Paulo). (MG)

Livro traz último ensaio de Tom Jobim

MARA GAMA
DA REDAÇÃO

Os últimos escritos do compositor e maestro Tom Jobim (1927-1994) saem agora em livro. “Visão do Paraíso – Mata Atlântica” traz textos “descompromissados” de Tom sobre a Mata combinados a um ensaio fotográfico de Ana Lontra Jobim, 40, viúva do compositor.

A Mata Atlântica é uma região de floresta que cobria originalmente a faixa litorânea do Brasil do Ceará ao Rio Grande do Sul.

A primeira data de lançamento do livro era dezembro de 1994. Com a morte de Tom Jobim, naquele mês, o projeto foi adiado. Houve então um lançamento em Nova York, em 18 de abril, quando foi feito um tributo ao maestro.

O livro “Visão do Paraíso” começou a ser produzido há dois anos. Foi um convite da editora Index ao casal Ana e Tom.

“Tom ficou muito entusiasmado com o tema, porque a mata era seu habitat, ele a conhecia, lia muito sobre as plantas e os pássaros”, conta Ana. A epígrafe do livro comprova: “Toda minha obra é inspirada na Mata Atlântica”, escreve Tom Jobim.

Com prefácio de Helena Jobim, irmã de Tom, o livro traz 54 fotos de paisagens e alguns textos manuscritos de Tom.

Ana Lontra Jobim é fotógrafa há 12 anos. Em 1987, fez o ensaio poético “Ana e Tom” com fotos sobre Tom Jobim. Assina, em parceria com Marcos Martins, os projetos gráficos das capas dos discos “Antonio Brasileiro”, de Jobim, e o último disco de Gal Costa “Mina d’água do Meu Canto”.

No lançamento do livro será exibido um especial de TV apresentado por Jobim. Ele fala das relações de sua música com a natureza e canta “Sabiá”, “Luiza”, “Águas de Março” e “Samba do Avião”. O filme foi dirigido por Flávio Tambellini com supervisão de Walter Salles Jr..

Livro: Visão do Paraíso – Mata Atlântica (128 págs., 54 fotos)
Autores: Tom e Ana Lontra Jobim
Lançamento: 19/06, às 19h, no Museu Botânico (r. Jardim Botânico, 1.008, Rio de Janeiro) e 22/06, às 19h, no Museu de Arte Moderna (parque Ibirapuera, s/n, portão 3, Vila Mariana, São Paulo)
Preço: R$ 90 no lançamento e R$ 100 nas livrarias.

Exposição revela contraste

MARA GAMA
DA REDAÇÃO

A mostra que abre hoje é representativa. O contraste das peças é o mesmo que as vitrines das “lojinhas de design” espalhadas pela cidade também mostram: há, pelo menos, três tipos de objetos muito diferentes sendo vendidos hoje como “design”.

Talvez seja inútil discutir a semântica, mas dá para diferenciar os produtos. Existe no Brasil uma pequena produção de desenho industrial analisado como “design” pela mídia. Que os produtos são desenhados, não há dúvida, mas o mercado e as publicações só se atêm ao que é produzido em tiragem restrita, logo, ao que é menos industrial. No grupo de desenho industrial de verdade, inclui-se o ventilador criado por Angela Carvalho e Alexander Neumeister e grande parte da produção gráfica.

Existe também, principalmente nos protótipos de móveis, um competente artesanato, esperando para ser industrializado e, então, usado por muita gente. Cadeiras, mesas e alguns utilitários da mostra pertencem a esta categoria.

Mas peças como estas ficam sempre igualadas, nas vitrines e exposições, com artesanato puro, ainda que modernizado. Deve ser o preço de fazer desenho industrial num país sem mercado. (MG)

Mostra do Salão Internacional chega a SP

MARA GAMA
EDITORA-ADJUNTA DA ILUSTRADA

Abre hoje, no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, a exposição de design que representou o Brasil no Salão Internacional do Móvel de Milão, em abril.

A mostra ficou 15 dias na sede do consulado brasileiro, com cem trabalhos de 56 designers nas categorias gráfica, móveis, objetos, iluminação, têxtil, high-tech.

Como toda “panorâmica”, a exposição mistura objetos bem-resolvidos, em que há invenção e técnica, e outros em que é sensível a ausência de projeto.

Para a curadora Marili Brandão, a irregularidade não compromete: “Foi difícil selecionar as peças, já que era a primeira grande mostra brasileira na capital internacional do design. Optamos por objetos que mostram criatividade e estilo pessoal”, diz.

Brandão considera sua iniciativa vitoriosa. Além de contatos para mostras futuras e representação, a mostra de Milão rendeu a inclusão de cinco artistas brasileiros no próximo Anuário Internacional de Design.

Na versão 96 do Anuário, estarão uma mesa de pedras brasileiras de Antonio da Motta Leal; uma luminária de Guinter Parschalk; um tecido da Arte Nativa; uma fruteira em papel de Annette Berliner e um ventilador de Angela Carvalho e Alexandre Neumeister.

Outra peça que teve impacto na exposição italiana, segundo Brandão, foi o par de pés-de-pato desenhado por Ricardo Sá e usado pelo campeão mundial de bodyborading de 1994, o brasileiro Guilherme Tâmega. Sá diminuiu o comprimento das nadadeiras, tornando-as velozes.

As peças estão expostas em nichos criados por Marcelo Rosembaun. Como designer das mesas “Cremilda” e “Brunilda”, em parceria com Ricardo Vanuzza, Rosembaun conseguiu um contrato com a Casa Teperman, que deve produzir cerca de cinco exemplares por mês das mesas.

Mostra de Design Brasileiro
Onde: Museu da Casa Brasileira (av. Faria Lima, 774)
Quando: abertura hoje, às 19h; de terça a domingo, das 13h às 18h; até 16 de junho