A marca registrada do design

Coletânea analisa a produção gráfica no Brasil entre 1870 e 1960, como em revistas, jornais e capas de disco

MARA GAMA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O Design Brasileiro antes do Design” (Cosacnaify, preço e número de páginas não definidos), título provocativo da coletânea organizada por Rafael Cardoso, é mais que a soma de seus nove estudos de caso situados no período de 1870 a 1960, em que se destacam os projetos de arte de J. Carlos na “Paratodos”, capas de livros de Tomás Santa Rosa, o “Santa”, ou capas de discos da gravadora Elenco, para citar referências mais conhecidas.

O livro traz a público exemplos de trabalho de campo, com pesquisas apoiadas em fontes primárias de documentação, e propõe o recuo ao marco zero na historiografia do design brasileiro.

Projetos de livros, ilustrações, revistas, rótulos de embalagens, capas de jornais, baralhos e a trajetória profissional de personagens fundamentais da indústria gráfica e editorial provam que a atividade projetual relacionada à produção e ao consumo no país é anterior à institucionalização da profissão de designer ou de desenhista industrial -e à inauguração do Instituto de Arte Contemporânea do Museu de Arte de São Paulo (1951) e da Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), no Rio (1963), esta última fortemente influenciada pelo ideário da escola alemã de Ulm, a herdeira direta da Bauhaus.

Segundo Cardoso, os anos 1950 e 1960 marcam uma mudança de paradigma, com a consciência do design como conceito, profissão e ideologia. Mas a cultura projetual começara bem antes.

Fartamente ilustrado, o “Design Brasileiro antes do Design” dá ao leitor a oportunidade de contato com o repertório variado e surpreendentemente independente que circulava nos -ou formatava os- objetos de consumo. “O que mais me impressiona ao analisar a produção desse período é a riqueza de soluções e a presença de um design moderno sem ser modernista”, analisa Cardoso, doutor em história da arte pelo Courtauld Institute of Art (Universidade de Londres) e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio, autor também de “Uma Introdução à História do Design” (Edgard Blucher).

Os anos 1950-60 marcam uma mudança de paradigma no design

Marcas de rapé

Partindo da análise de imagens, grande parte dos estudos chega à história da indústria, das mudanças tecnológicas e de mercado, construindo um panorama amplo. Assim, em “A Circulação de Imagens no Brasil Oitocentista – Uma História com Marca Registrada”, a designer gráfica Lívia Lazzaro Rezende conduz uma viagem ilustrada aos rótulos de produtos e à história das marcas registradas no país, que, segundo o estudo, devem em parte sua primeira legislação, de outubro de 1875, a uma disputa entre duas marcas de rapé.

Também na década de 1870 se situa um dos marcos fundamentais para a história da imprensa no país, com o lançamento da “Revista Ilustrada”, de Ângelo Agostini, tema presente no estudo “Do Gráfico ao Foto-Gráfico – A Presença da Fotografia nos Primeiros Impressos”, de Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, chefe da divisão de iconografia da Biblioteca Nacional, professor de fotografia na PUC-RJ e autor de “História da Fotorreportagem no Brasil – A Fotografia na Imprensa do Rio de Janeiro de 1839 a 1900” (ed. Campus).

“Das fructas todas esta será, sempre, a mais sã…” era o slogan da primeira capa de “A Maçã”, publicação “galante” dirigida ao público masculino e editada pelo escritor Humberto de Campos, o Conselheiro XX (xis-xis), tema de “”A Maçã” e a Renovação do Design Editorial na Década de 20″, da designer Aline Haluch. “O Início do Design de Livros no Brasil”, texto do organizador, trata da evolução da indústria gráfica e do livro nas primeiras décadas do século 20, mapeando as contribuições multifacetadas de editores como Monteiro Lobato e ilustradores como Alvarus e o pintor Di Cavalcanti.

Capas de discos

“Os Baralhos da Copag entre 1920 e 1960”, de Priscila Farias, doutora em comunicação e semiótica, analisa estilos e influências de padrões internacionais e sistema de produção gráfica da Companhia Paulista de Papeis e Artes Graphicas.

“Capas de Discos – Os Primeiros Anos”, de Egeu Laus, revela a história da indústria fonográfica no Brasil, contextualizando a expressão gráfica com as mudanças de material e bitolas e mostrando a invenção da própria capa como mídia. Laus, pesquisador da história do design, é designer gráfico e autor de mais de 200 capas de disco.

Mara Gama é gerente geral de entretenimento do UOL.

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