Arquitetura: Um prédio polêmico

Museu foi instalado em 1968 sob a marquise do Ibirapuera, idealizada por Oscar Niemeyer; Lina Bo Bardi projetou a reforma do prédio, mas depois se arrependeu e pediu a demolição 

MARA GAMA
Gerente de Criação do Universo Online

“Se eu fosse o projetista da marquise, isto é, Oscar Niemeyer, já teria pedido a demolição de tudo aquilo.” Assim escreveu a arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) ao apresentar seu projeto de reforma do mam em 1982. Foi o primeiro sinal público da conturbada relação entre a arquiteta e o prédio do museu.

Lina participou da história da sede Ibirapuera do Museu de Arte Moderna de São Paulo desde o princípio.

Criou para o espaço onde hoje está o museu um “terreiro” para ali dispor sua “Bahia no Ibirapuera”, exposição paralela da 5ª Bienal de Arte de São Paulo. Isso quando a marquise ainda era marquise, uma estrutura que recobria livremente uma área de cerca de 6,5 mil metros quadrados, projetada por Niemeyer como elemento escultural de ligação entre todos os prédios do parque.

Para a exposição “Bahia”, Lina espalhou folhas de eucalipto sobre o piso de parte da marquise. Santos, orixás, carrancas e ex-votos foram instalados em bases de concreto e conchas.

Terminada a exposição, o “terreiro”, que então já se fixara como área de aproximadamente 400 metros quadrados, estreita e paralela a uma das fileiras de pilares, passou a ser chamado de Pavilhão Bahia e virou depósito para a Bienal. Foi assim usado por dez anos.

Em 1968, o mam conseguiu do prefeito Faria Lima o Pavilhão Bahia. A direção do museu encomendou ao arquiteto Giancarlo Palanti o projeto de instalação interna no pavilhão, a programação visual do museu e o logotipo.

A mostra Panorama da Arte Atual Brasileira, em 1969, marcou a reinaguração do museu em sua nova sede. De 1969 a 1982, o mam viveu nessa mesma área.

Foi em 1982 que Lina voltou ao mam, com os arquitetos André Vainer e Marcelo Ferraz, para projetar a reforma.

Sua mais importante intervenção foi abrir o prédio ao parque. Lina substituiu uma parede de alvenaria que fechava uma lateral do museu por um imenso painel de vidro recuado da estrutura superior. O objetivo era deixar o prédio transparente. De fora, suas exposições poderiam ser apreciadas por quem passeia pelo parque. De dentro, se poderia ver o jardim e a silhueta da cidade.

As obras deveriam ser dispostas no sistema de cavaletes que Lina fez para o Masp ou suspensas. O corpo do museu teria de permanecer sem divisórias.

Apesar do projeto resgatar em parte a idéia da marquise, liberando a passagem da luz, a reforma deu ao mam uma área de 900 metros quadrados, retirados da área livre. É da época da inauguração o texto que a arquiteta escreve, já na defensiva, aventando a demolição.

No primeiro ano do novo museu, Lina ficou descontente com a maneira de expor as obras. Em carta enviada à coordenação do mam, em setembro de 1983, a arquiteta defende a retirada dos painéis. Sua insatisfação perdurou e, em dezembro, Lina, Vainer e Ferraz fazem uma autocrítica pública: “A exposição montada apinhadamente e diletantemente pela equipe do mam destruiu as bases arquitetônicas do projeto. O mam teve a ajuda do Poder Público para servir a população de São Paulo e o resultado obtido demonstra que nossa atitude profissional foi errada. Ao invés de reconstituir o mam, devíamos ter reconstituído o projeto original do arquiteto Oscar Niemeyer e liberado a marquise.”

A arquiteta volta a insistir em carta publicada pela Folha, em 16 de junho de 1984: “Tendo chegado ao meu conhecimento que, para ampliar o Museu de Arte Moderna (…), foi invadido um ulterior espaço da marquise, esclareço o seguinte: o projeto do museu (…) teve como princípio a preservação visual da marquise de Oscar Niemeyer, através de uma grande parede de vidro, recuada da estrutura portante. Dita ampliação, feita à revelia do arquiteto, fere (como intervenção descontrolada) não somente a ética profissional, como permite, democraticamente e legalmente a ocupação (…) de parques e áreas públicas pelas entidades mais diversas, o que representaria um perigo a mais para as áreas públicas da comunidade.”

O museu cresceu e planeja expandir-se, incorporando mais uma parte da marquise. Os defensores da obra de Niemeyer consideram um erro tratar a marquise como um telhado e uma calçada prontos para serem recheados. Propõem como alternativa realocar fora do parque Detran, Prodam e museus abandonados para instalar mam, MAC e usar o Ibirapuera como espaço cultural, sem para isso descaracterizar sua obra inaugural.

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