A herança moderna da arquitetura

MARA GAMA
especial para a Folha de S.Paulo

Até 2 de novembro, o pavilhão da Bienal, no parque Ibirapuera, em São Paulo, exibe maquetes, fotografias, plantas, desenhos e visões sobre a metrópole, na 5ª Bienal Internacional de Arquitetura, a BIA. É uma mostra extensiva. Só na exposição geral, são mais de 300 projetos brasileiros, além das salas dedicadas a nomes de destaque no país.

Sessenta anos separam essa panorâmica de uma outra mostra, de 1943, muito menor, mas estrondosa: a “Brazil Builds”, no MoMA (Museu de Arte Moderna), em Nova York, transformada também em livro (veja aqui).

Foi um marco histórico, divulgando para o mundo obras e arquitetos que simbolizavam o modernismo no Brasil. Era tudo novo, como destaca o arquiteto Henrique E. Mindlin no livro “Arquitetura Moderna no Brasil” (Iphan, MinC e Aeroplano, 2000): “A história da arquitetura moderna no Brasil é a história de um punhado de jovens e de um conjunto de obras realizado com uma rapidez inacreditável”.

Hoje, não há mais um movimento único a flagrar. A nova geração constrói obras isoladas, que tentam se impor nas malhas intransitáveis das cidades.

No discurso, a herança do modernismo, a defesa do ambiente e do patrimônio histórico e cultural e a recuperação das áreas de degradação das cidades são preocupações dos jovens arquitetos brasileiros.

Apesar das idéias e princípios comuns, não há monotonia. “A principal mudança no período pós-Brasília foi a ruptura do monopólio arquitetônico do eixo Rio-SP”, afirma Alberto Xavier. Arquiteto e pesquisador, autor de vários livros, Xavier relançou recentemente a preciosa coletânea “Depoimento de uma Geração” (Cosac & Naify, 2002), sobre arquitetura moderna brasileira.

O resultado dessa descentralização, para Xavier, é a diversidade de influências, materiais, linguagens e técnicas, “em especial o enfoque alternativo ao concreto armado, que era hegemônico”, diz. Há também uma releitura do movimento moderno dos anos Brasília, “especialmente as relações entre o entorno e o edifício, que era concebido como um ente isolado”.

Para o arquiteto e professor Hugo Segawa, estudioso do movimento moderno e autor de “Arquiteturas no Brasil 1900-1990” (Edusp, 1998), entre outros livros de referência, o panorama atual é difuso, com grupos interessantes em Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife, mas com obras de alcance ainda pequeno.

Segawa vê em São Paulo um grupo que se destaca. “Não se pode dizer que constituam um grupo ideologicamente alinhado, mas têm raízes em comum, como o fato de terem cursado a Faculdade de Arquitetura da USP nos anos 1980. São formados numa época de efervescência da escola, com o retorno de mestres cassados em 1969, como Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha e Jon Maitrejean”, afirma. “Muitos deles têm Mendes da Rocha como referência, estagiaram ou trabalharam com ele. E muitos estagiaram no escritório que era o Rino Levi Arquitetos, com seus assistentes próximos.”

E que características tem esta produção? “A grande novidade nesses jovens é o velho”, diz Segawa. “Diferentemente da iconoclastia dominante na virada dos anos 1970 para os 1980, com a onda pós-moderna, a geração paulista valoriza a continuidade com um olhar crítico sobre a tradição do moderno.”

Ao retomar a tradição, os arquitetos paulistas estão revendo atitudes instauradas pelos pioneiros do moderno no Brasil, “sem ranço e com personalidade própria”, diz Segawa. “Basta conferir os CEUs [Centros Educacionais Unificados], da Prefeitura de São Paulo. Em sua essência, carregam ainda as propostas pedagógicas de Anísio Teixeira dos anos 1950. Anísio foi fundador da UnB e mestre de Darcy Ribeiro, que reinterpretou seus conceitos nos Cieps projetados por Oscar Niemeyer e João Filgueiras Lima, o Lelé, nos 1980”, conclui Segawa.

Como fenômeno internacional, a arquitetura brasileira já teve melhores dias. “Uma coisa é um ou outro projeto publicado isoladamente em revistas de arquitetura européias, japonesas ou americanas; outra, o boom experimentado no período 1930-1960”, diz Alberto Xavier. “Os projetos relevantes no contexto urbano são confiados a nomes consagrados, e os jovens ficam limitados a obras de pequeno porte”, diz.

“Num país no qual se estima o funcionamento de 150 escolas de arquitetura e um mercado altamente competitivo, não se pode conceber, hoje, um novo Niemeyer projetando todos os edifícios públicos de uma cidade”, diz Segawa.

Mesmo sem o apoio do Estado e sem a glória dos primeiros anos do modernismo, a arquitetura social não sumiu do horizonte dos arquitetos brasileiros. Ainda se quer criar cidades mais democráticas, habitação de qualidade para a população, espaços públicos generosos, organizadores da paisagem e dos fluxos urbanos e geradores de civilidade.

“As cidades possíveis que os jovens podem desenhar estão sendo feitas nas periferias, em assessorias à população de baixa renda, geralmente por gente idealista. No âmbito mais convencional da profissão, os jovens só podem se destacar participando e ganhando concursos públicos -um mecanismo de escolha de projetos ainda pouco valorizado no Brasil”, afirma Hugo Segawa.

Quem são esses jovens? Para mapear a produção nacional, o Sinapse consultou os arquitetos e professores Lucio Gomes Machado, Hugo Segawa e Alberto Xavier, em São Paulo, Luiz Amorim, em Recife, Ana Fernandes, em Salvador, e Mauricio Neves Nogueira, no Rio. Alguns destaques da nova geração estão nesta reportagem.

Mara Gama, 40, é gerente-geral de entretenimento do Universo Online e faz pós-graduação em design no Senac-SP.

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