Design na veia – Helsinque será capital mundial do design em 2012

Helsinque será a capital mundial do design em 2012. A capital finlandesa comemora de maneira simples, prática e econômica, mesmas qualidades que norteiam o design de lá

Uma visita a Helsinque mostra que o design está no dia a dia dos finlandeses. E não é de hoje. Desde os anos 1930, a produção de objetos para melhorar a vida das pessoas é vista como vetor do desenvolvimento do país.

Praticidade máxima, simplicidade e economia são qualidades evidentes nas ruas, parques, edifícios, trens, roupas e objetos.

Em 2012, a cidade vai colocar a lupa sobre a herança dos pioneiros e novas práticas do design, quando Helsinque recebe o título de capital mundial do design, dado a cada dois anos pela ONG Icsid (Conselho Internacional das Sociedades de Design Industrial).

Mas não se deve esperar escândalo de marketing ou pirotecnia arquitetônica, como acontece em copas e Olimpíadas pelo mundo. Na hora de celebrar, os finlandeses vão seguir o tema do Helsinque Capital Mundial do Design 2012, “Embedding Design in Life” (algo como design incorporado à vida). Na prática, significa que a maior parte das novidades têm como objetivo tornar melhor o cotidiano da cidade.

Um exemplo é o plano para redesenho da área portuária sul. Um concurso internacional foi feito para reurbanizar a região e conectá-la ao centro histórico, por vias para pedestres e ciclovias, sem prejudicar a vista para o mar. Outro marco no cenário urbano é a nova biblioteca da Universidade, que vai reunir 13 bibliotecas de faculdades num lugar só, no centro, e facilitar o acesso aos arquivos digitais. O prédio, erguido no local de uma antiga garagem com projeto do estúdio Anttinen Oiva, tem um grande bloco sinuoso, mas não perde de vista a escala humana e não canibaliza o local -sua altura é como a dos edifícios do entorno, oito andares no máximo.

Durante o ano, estão programadas também mostras históricas sobre os precursores do design finlandês e expoentes atuais, como a Nokia.

A HISTÓRIA

O design passou a ser visto como valor social e econômico do país a partir dos anos 1930. Já naquela época, as vidrarias finlandesas começaram a fazer concursos para incentivar inovação. Entre 1933 e 1936, o mobiliário de madeira compensada curvada e o vidro savoy em formato de ameba desenhados pelo representante da arquitetura finlandesa mais famoso, Alvar Aalto (1898-1976), tiveram grande repercussão na Trienale de Milão.

Depois da guerra, nos anos 1950, houve um boom da construção de moradia nas áreas urbanas. Os novos apartamentos pediam objetos pequenos, duráveis e baratos.

Foi para atender essa demanda que trabalhou outro ícone do design finlandês, Kaj Franck (1911-1989), na cerâmica Arabia, hoje Iittala. Ele desenvolveu formatos combináveis e empilháveis para a louça, em pratos e travessas triangulares, retangulares e cuias.

Também nos anos 1950, começou a funcionar a mais importante estamparia finlandesa. Chefiada pela primeira executiva do país, Armi Ratia, a marca Marimekko -literalmente “vestido de Mari”, suas cores vibrantes e desenhos generosos viraram parte da identidade nacional.

Alimentada hoje por contribuições de novos designers, a Marimekko não deixa de lado a sua história e reimprime, de tempos em tempos, motivos antigos, no original ou com alterações de cores e escala. Em sua fábrica, nos enormes rolos de algodão já estampados podem ser vistos lado a lado temas orgânicos e geométricos, desenhos tradicionais étnicos e distorções de grafismos. A integração entre design e indústria marca a economia e tem reflexos no ensino. A universidade Aalto, uma das mais prestigiosas, tem um currículo voltado para a inovação e a competitividade e seus alunos frequentam cursos nas faculdades de arte e design, economia e tecnologia.

Para divulgar o ano do design e trocar experiências com escolas e empresas, chega ao Brasil em dezembro de 2011 um grupo de cem estudantes da universidade Aalto. A expedição Aalto on Waves sai de Lisboa num navio e aporta no Rio. Aqui no Brasil, os alunos querem ver na prática como é possível melhorar a vida das pessoas através do design.

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Designer da Ferrari quer projetar interiores no Brasil

Os projetistas da Ferrari lançaram na última segunda, 17, o primeiro produto com uma empresa brasileira.

É o iate Phantom 600, produzido pelo estaleiro catarinense Schaefer com design interno da Pininfarina e apresentado na feira São Paulo Boat Show. Capacidade para 16 pessoas, 3 suítes, preço de R$ 5 milhões a R$ 6 milhões.
A Pininfarina quer fazer interiores. Hotéis, centros de convenções, carros, barcos, aviões estão na mira do italiano Paolo Pininfarina, 53, atualmente o único da família na empresa, fundada pelo seu avô há 82 anos.
Responsável por transformar a empresa numa plataforma internacional de design, o engenheiro Paolo considera o Autolib, sistema de carros elétricos que fez para a Bollore na França, “o maior projeto de mobilidade elétrica coletiva do mundo”.
Sobre a economia italiana, diz que o país se arrisca a sucatear a indústria porque não investe em pesquisa e inovação. “É um desastre.” A seguir trechos da entrevista concedida em São Paulo.

 
Como pretende atuar no Brasil?
Paolo Pininfarina – Em design de interiores. Devemos montar equipes com participação de jovens daqui. Sangue novo é fundamental.

Como se estrutura a equipe de design da empresa?
Ha dois times criativos -o automotivo e o não automotivo. O automotivo é histórico, com cerca de 60 pessoas. A equipe não automotiva nasceu nos anos 1990 e tem 30 designers. Time é fundamental. Nenhum de nós diz “eu fiz”. Dizemos “fizemos”. O único que podia dizer “eu fiz” era meu avô, um visionário.

Como garantir inovação na empresa? 
Quando tinha seis anos, meu pai nos levava para andar numa Ferrari 330 CTC, eu e meu irmão, e, parando em frente à Basilica de Superga (nos arredores de Turim, Itália), dava-nos lições de design. Esse é o DNA. Meu avô enviou meu pai para se formar em engenharia na Inglaterra. Meu pai fez o mesmo. Eu e meu irmão tivemos essa base técnica, que viabiliza os projetos. De vez em quando um objeto criado por nós acaba no MoMA. Mas meu avô não pensava em estar no MoMA. Com o X-Italia, ele queria fazer mil carros por ano, queria fazer produção em série. E, como era uma obra-prima, uma escultura em movimento, acabou no MoMA.

Como funcionam os projetos de transportes sustentáveis?
Concentramo-nos em projeto e protótipo. No Autolib, que é o maior projeto de mobilidade elétrica coletiva do mundo, colaboramos com a Bollore. Serão 4.000 automóveis produzidos pelo nosso pessoal até o fim de 2013.

Europeus e americanos devem temer o avanço da indústria automobilística na China?
Hoje são vendidos na China 9 milhões de carros ao ano. Nos próximos anos, a demanda será de 20 milhões. Eles devem crescer para a demanda interna. Fazemos projetos com a China há 15 anos e vejo o país como oportunidade e não como ameaça.

Como vê o futuro da indústria na Itália?
A Itália sempre foi definida um país de artistas, mas também de engenheiros. Hoje, o turismo e a enogastronomia são promovidos. Mas não podemos pensar apenas em hotéis. Não há a mínima percepção do que é a evolução do mundo em termos de pesquisa e inovação. É um desastre. A Itália se arrisca a daqui a dez anos ter uma indústria automobilística superada.