Análise: das cadeiras do STF a baldes de gelo, o arquiteto que virou designer

O criador das imponentes cadeiras amarelas da sala do Supremo Tribunal Federal faz parte de uma geração de arquitetos que começou a desenhar mobília e objetos a partir do espaço construído e acabou mais conhecida pelo design que pela arquitetura.

O polonês Jorge Zalszupin integrou o grupo que, a convite de Oscar Niemeyer, nos anos 1960, concebeu e produziu móveis para gabinetes e palácios na construção da nova capital, Brasília, numa empreitada hercúlea que exigia escala inédita no país até aquele momento. E muita pressa.

Anos mais tarde, foi o responsável pela produção das primeiras cadeiras de plástico escolares, com pranchetas acopladas.

Ao longo de uma carreira muito produtiva, sua obra se distingue pela forte influência do design nórdico, a qualidade da marcenaria e dos acabamentos e o pioneirismo na produção em série de mobília de escritórios e utensílios em plástico -como o baldinho da Eva (da maçãzinha), ícone dos anos 1970, que tem o pegador de gelo encaixado na tampa.

De 1959, são dois dos seus móveis mais conhecidos e que ilustram a sua versatilidade formal, como a poltrona dinamarquesa e o carrinho de chá, inspirado num carrinho de bebê e recriado com bandejas de jacarandá e rodas de latão.

Nos anos seguintes, viriam a poltrona 720, desmontável, a cadeira Ouro Preto e o convidativo sofá Brasiliana, um primo distante do sofá mole, de Sergio Rodrigues.

Nos últimos dez anos, sua obra em design tem sido resgatada, assim como a de outros designers de móveis modernos do Brasil. A mostra “Sempre Modernos”, que reuniu 40 peças de Zalszupin, Joaquim Tenreiro, Sergio Rodrigues e Jean Gillon, na galeria Passado Composto, em São Paulo, há cinco anos, foi um dos marcos dessa revalorização.

O interesse de colecionadores pelo design moderno brasileiro também favoreceu a redescoberta de Zalszupin. Em 2006, começou a ser reeditada uma coleção de peças suas, sem o uso do precioso jacarandá (que marcou os originais), mas com madeiras certificadas. As peças são vendidas no Brasil e exportadas para a Europa e os Estados Unidos. Seu sofá Brasiliana pode custar até R$ 27 mil, e os pedidos levam de 12 a 14 semanas para serem entregues.

http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2015/07/1648306-analise-das-cadeiras-do-stf-a-baldes-de-gelo-o-arquiteto-que-virou-designer.shtml

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Artista usa poluição, sujeira e dejetos como matéria prima de seu trabalho

Apagando com panos a sujeira de um túnel subterrâneo, ele criou o mural “Ossário”, de 300 metros, com 3.500 crânios desenhados, há quase dez anos. Durou pouco, mas fez história. Estava inventado o grafite reverso. Com a fuligem que extraiu da lavagem dos panos, fez pigmento para pinturas que espalhou por paredes e ruas.

Alexandre Orion, 37, fotógrafo, designer e artista, inclui poluição, fotografia, paisagens e habitantes urbanos em suas obras. O pensamento sobre a cidade não se resume aos materiais.

“Tudo que faço tem discurso, ideia, discussão sobre interdependência, comunidade. Não faço nada fechado, só conceitual. É tudo para tocar o outro. Sou mais comunicador que artista”, diz.

Orion acaba de encerrar uma mostra na galeria Luis Maluf, em São Paulo, em que exibiu rostos em painéis pintados com spray aparentando carvão, remetendo ao gestual do grafite.
Nascido em São Paulo, Orion desenha e pinta desde criança. Aos 13, influenciado pelo skate e pelo hip hop, fez o primeiro trabalho de parede. Depois vieram tatuagem, ilustração e direção de arte. Em 2002, trocou o trabalho “mais comercial” por projetos independentes. Formou-se em artes visuais, em 2004.

O mercado recebeu bem sua primeira série, “Metabiótica”, de 2002. As 20 imagens foram geradas a partir de pinturas nos muros que propunham interação com os passantes. O resultado foi registrado em fotografias. A série foi exposta na Pinacoteca, viajou pelo mundo e virou livro. “Os passantes tornaram-se personagens, acrescentando coisas”, diz.

Em 2006, veio a intervenção urbana “Ossário”, nas paredes do túnel Max Feffer, que liga as avenidas Europa e Cidade Jardim. Durante 12 noites, Orion ficava no corredor para pedestres tirando a fuligem para formar as caveiras, que remetiam a um sítio arqueológico urbano fictício. Também aludiam ao fato de a cidade ser construída para carros e não para pessoas.

CRIME AMBIENTAL

Na 13ª madrugada, três caminhões da prefeitura apagaram o mural, sem limpar nada do resto do túnel.

“‘Ossário’ foi construída sobre a ideia de crime. O crime ambiental que é a poluição, o descaso do poder público com os túneis e a pergunta do grafite reverso: o crime está na tinta, como diz a lei, ou na mensagem?”
Em 2014, para a Virada Cultural, Orion criou o mural “Apreensão”, em um CEU (Centro Educacional Unificado) no Grajaú. Numa empena de 15 metros de concreto, o artista desenhou uma menina gigante -a referência fotográfica é a filha caçula dele-_que brinca com casas do bairro na zona sul como se fossem pecinhas de um jogo.

“Eu queria uma imagem delicada. Ao mesmo tempo, o assunto das desapropriações ali é sério. A primeira impressão é agradável, mas o mural é uma janela surreal, um King Kong destruindo a cidade”, diz. “Não quero que seja só bonito. Quero que as pessoas vejam coisas ali.”

http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2015/06/1637804-artista-usa-poluicao-sujeira-e-dejetos-como-materia-prima-de-suas-obras.shtml