Livro de Adélia Borges exibe objetos manuais em contraponto à massificação

Livro exibe objetos manuais em contraponto à massificação

MARA GAMA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Misto de reportagem e ensaio, o novo livro da crítica e curadora Adélia Borges reconstrói a história da revitalização do artesanato brasileiro e a participação fundamental de designers neste processo.

“Design + Artesanato – O Caminho Brasileiro” -cujo lançamento ocorre, em São Paulo, nesta quinta- conta experiências como a da Coopa-Roca, cooperativa de moradoras da Rocinha, no Rio, que desde os anos 1980 fornece seus produtos para estilistas, ou de designers como Domingos Totora, Ronaldo Fraga, Mana Bernardes, Renato Imbroisi, Heloisa Crocco e Marcelo Rosenbaum.

Além de atuar diretamente sobre a qualidade ou os processos de fabricação, esses profissionais têm feito o meio de campo entre as comunidades e o mercado, contribuindo na comunicação e na gestão estratégica.

O artesanato está em alta. A autora estima que é uma das cinco atividades que mais contribuem para o PIB do país, com algo como 8,5 milhões de artesãos.

Segunda o texto, é primordialmente uma atividade feminina, feita em grupos e entre famílias.

O mesmo sentimento que revaloriza o “slow movement” (movimento cultural que prega um estilo de vida mais tranquilo, desacelerado) ou a culinária regional contra o fast-food impulsiona o objeto artesanal.

“Vivemos num mundo de massificação, da impessoalidade e desterritorialização. Nesse cenário, os objetos artesanais surgem como contraponto. Em vez da uniformidade e da padronização, são únicos, nunca idênticos. Têm a beleza da imperfeição”, escreve Borges.

EXPLORAÇÃO

Mas nem tudo são flores. Apesar de entusiasmado, o livro é crítico em relação à iniciativas de intervenção irresponsáveis e exploração de mão de obra batizada de design social como marketing. Segundo a autora, a integração entre design e artesanato no país é recente.

Em um percurso oposto ao de países como Itália, Inglaterra e Finlândia, em que a concepção dos produtos se beneficiou da tradição artesanal, no Brasil o design teria começado desprezando o trabalho manual.

Adélia Borges atribui a cisão ao forte traço racionalista das escolas que foram implantadas no país, a partir da precursora Escola Superior de Design, de 1963, no Rio.

A concepção do bom desenho universal teria excluído a possibilidade de valorizar o desenho particular, impreciso, de raízes culturais marcadas e sistema de produção arcaico.

“Design + Artesanato – O Caminho Brasileiro” é, enfim, um trabalho original, instigante, repleto de informações nunca antes reunidas, formando um recorte vivo sobre a cultura material do país.

DESIGN + ARTESANATO – O CAMINHO BRASILEIRO

AUTORA Adelia Borges
EDITORA Terceiro Nome
QUANTO R$ 80 (240 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo
LANÇAMENTOS qui. (dia 2), das 19h30 às 22h
ONDE A Casa – Museu do Objeto Brasileiro (r. Cunha Gago, 807, Pinheiros, tel. 0/XX/11 3814-9711)

 

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Livro é essencial para entender a produção brasileira de design gráfico

Ser o mais abrangente compêndio de design gráfico sobre o país já faz do livro de Chico Homem de Melo e Elaine Ramos um trabalho essencial para quem se interessa pela cultura visual brasileira.

Mas, sobre uma pesquisa extensiva -cujos detalhes estão no capítulo “Crônica do Processo de Trabalho”-, houve uma seleção criteriosa nas qualidades expressivas de cada peça, aberta à contaminação dos contextos técnicos e históricos.

Como resultado, o livro, pensado inicialmente como apêndice da prestigiosa “História do Design Gráfico”, de Philip Meggs e Alston Purvis, tem mais vocação para atingir o público não especializado do que o seu modelo original, tanto pela abordagem cultural como pelos textos analíticos, concisos e leves.

Revistas, livros, jornais, cartazes, capas de disco, sinais, selos e cédulas foram os grandes grupos de peças escolhidas para contar a história da criação gráfica no país a partir da vinda da família real portuguesa e a consequente autorização para impressão local, em 1808.

Incluir a produção anterior à difusão do conceito de design -que se dá nos anos 1950 e 1960- sinaliza uma perspectiva aberta. A mesma adotada por Rafael Cardoso em “O Design Brasileiro Antes do Design – 1870 – 1960”, publicado em 2005, também pela Cosac Naify.

CAPAS SATÍRICAS

As 1.500 peças que figuram nesta “Linha do Tempo” são apresentadas com autor, datação e análise da composição. Dez capítulos panorâmicos exploram a produção de cada período histórico.

Para o público em geral, “Linha do Tempo do Design Gráfico no Brasil” é um saboroso passeio pelos repertórios de várias gerações. Estão ali desde as capas satíricas de Angelo Agostini para o jornal “Don Quixote”, ainda no século 19, os memoráveis periódicos “O Malho”, “A Maçã”, “Para Todos”, “O Cruzeiro”, e trabalhos de ilustradores como J. Carlos, K. Lixto, Paim, Belmonte, Di Cavalcanti.

Há desde marcas e logotipos dos anos 60, 70 e 80, de Aloisio Magalhães, Alexandre Wollner e Cauduro e Martino, até famílias de tipos dos anos 1990, como a “Quadrada”, de Priscila Farias, e a “Piercing”, de Julio Dui.

Para quem quer estudar o tema, Chico Homem de Melo aponta lacunas de informação que sugerem bons temas de pesquisa.

LINHA DO TEMPO DO DESIGN GRÁFICO NO BRASIL
ORGANIZAÇÃO Chico Homem de Melo e Elaine Ramos
EDITORA Cosac Naify
QUANTO R$ 198 (744 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo