Peças únicas e palestras são destaques do Design São Paulo

Evento, que começa hoje, quer ser um fórum de discussão e espaço de encontro de artistas

Salão vai até o dia 19, no parque Ibirapuera; programação reúne o designer Gijs Bakker e os irmãos Campana

 

Fotos Divulgação

“Bamboo Blow Up Family”, dos irmãos Campana



MARA GAMA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Peças únicas ou de séries limitadas são as estrelas do salão Design São Paulo, que começa hoje na Oca, no parque Ibirapuera.

O salão, contudo, quer ir além e ser um fórum de discussão e espaço de encontros, mostras, debates, palestras e uma oficina.

Homenageados, os irmãos Campana terão a mostra De Fio em Fio, recorte temático de sua obra, com curadoria feita pela jornalista Maria Helena Estrada.

Também serão anunciados no salão os vencedores do Top XXI Design Brasil.

A programação é promissora. Um dos destaques é a palestra com o holandês Gijs Bakker, fundador da companhia Droog Design, que dirige o projeto Yii Taiwan, que une designers para renovar o artesanato tradicional.

Estão programadas mesas sobre design e arte, gestão e vertentes do design, com participações de Heloisa Crocco, Fred Gelli, Marcio Kogan, Guto Indio da Costa, entre outros. A designer Mana Bernardes coordena oficina com material de uso comum.

No dia 18, acontece um Pecha Kucha, formato de apresentações de projetos feitas pelos próprios autores.

Estão escalados Jum Nakao, Renato Imbroisi, Marcelo Rosembaum, Fernando Prado, Baba Vacaro e Claudia Moreira Salles.

O salão foi concebido pelo colecionador de arte Waldick Jatobá, pela produtora Katia d” Avillez e pela economista Lídia Goldenstein. Eles se associaram à Luminosidade, de Paulo Borges, que faz a São Paulo Fashion Week.

O formato é semelhante ao de feiras como a SP Arte, que está na sétima edição e que levou 18 mil pessoas ao pavilhão da Bienal em maio passado, com 89 expositores. Para o salão Design, é esperado um público de 2.000 pessoas por dia.

AUTORES

Serão comercializadas 120 peças únicas ou de séries limitadas de até 150 exemplares. Entre os autores estão Oscar Niemeyer, Joaquim Tenreiro, Sergio Rodrigues, Jorge Zalszupin, Jean Gillon, John Gray, Zanine Caldas, irmãos Campana, Claudia Moreira Salles, Hugo França, Maurício Arruda, Gerson de Oliveira e Luciana Martins.

O salão também incentivou conexões entre criadores e empresas.

Entre os resultados dessa experiência estão um banco de Marcius Galan para a galeria Luisa Strina e a luminária do designer Antonio Bernardo para a empresa Lumini.

Anúncios

Bagagem [compras mundo afora]: Mercado sueco

Loja de design na Suécia renova coleção toda semana e lança criadores

MARA GAMA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Novos e selecionados, toda semana. É o slogan da rede sueca de lojas DesignTorget (http://www.designtorget.se), com sede em Estocolmo, filiais em Malmö, Gothenburg, Uppsala e mais quatro cidades da Suécia e, desde o ano passado, também em Oslo, Noruega.

E a ideia é levada a sério. Na DesignTorget há uma grande quantidade e variedade de objetos para cozinha, banheiro, brinquedos, papelaria, tecidos, relógios, itens de jardinagem, bolsas, sacolas, cabides, livros.

Semanalmente, novos produtos aportam nas prateleiras. Para os viajantes em busca de presentes e para os novidadeiros em geral, belezura. Para manter essa renovação, há um projeto diferenciado de loja, que se orgulha da sua conexão direta com os designers criadores dos objetos e com as escolas de design da Suécia.

Fundada há 16 anos, tendo como primeiro espaço o piso térreo da Casa de Cultura de Estocolomo, a DesignTorget nasceu em plena recessão econômica, como mercado aberto e alternativo para que os designers pudessem vender seus objetos. Daí o nome. Torget é sinônimo de mercado, como local de venda. Os idealizadores não estão mais à frente do negócio, mas o espírito original se mantém, reformulado em bases muito interessantes.

Toda semana, uma comissão de designers profissionais se reúne e seleciona itens para aquisição e venda. Funciona como um concurso. Os candidatos enviam seus projetos e, caso aceitos, são vendidos em consignação. Os produtos, de designers novos ou já famosos, ficam por tempo limitado à venda, dependendo da demanda. O porta-bananas da foto é um dos campeões de vendas. 42 mil unidades, em três anos.

Funcionalidade, novas ideias, incentivo à produção local e projetos bem-humorados são alguns tópicos avaliados. Outra exigência para ser aceito é que a DesignTorget seja a primeira a vender o objeto.

Além dessa forma diferente de captar projetos, a loja exibe, junto aos produtos recentemente adquiridos, cartões, em formato de postais, com biografia dos designers autores. Anualmente, segundo a coordenadora de marketing, Malin Löfmark, a rede lança cerca de 20 designers no mercado.

Alguns objetos que são vendidos na DesignTorget estarão expostos na mostra “Sementes Suecas – a Suécia desenha para crianças”, que começa na próxima terça, dia 17, no Museu da Casa Brasileira (av. Brig. Faria Lima, 2.705), em São Paulo.

MARA GAMA é ombudsman do UOL e edita o blog http://blogdesign.blog.uol.com.br/

Fino: Pura moleza

por MARA GAMA

Precursor da poltrona mais famosa do design brasileiro, o sofá Mole foi batizado há 50 anos, no mar do Leblon

A maré subiu e Sergio Rodrigues tentou proteger o sofá das ondas do mar na praia do Leblon. Atrás da câmera, com os pés na areia, o fotógrafo Otto Stupakoff ajustava as lentes. Não deu tempo. Uma onda rasteira veio e empapou o sofá, diante de um público de curiosos que assistia à primeira sessão de fotos para a divulgação do sofá Mole, projeto do qual mais tarde derivaria na poltrona Mole. A idéia inusitada -na época- das fotos na praia foi de Rodrigues. “Vai ficar bem brasileiro”, concordou Stupakoff.

O ano era 1958. Reportagem publicada no “Correio da Manhã”, segundo Rodrigues, fazia troça com a sessão de fotos e trazia um comentário de uma senhora que estava passando no local: “Grã-finos agora estão jogando móveis ao mar para Iemanjá, é?”

“No fim foi uma promoção muito boa. Estávamos inaugurando uma mostra na loja no dia seguinte e acabamos colocando o móvel molhado mesmo. Foi um sucesso a exposição”, lembra Rodrigues.

Pela primeira vez o sofá Mole era exposto ao público. Criado um ano antes, em 1957, a pedido de Stupakoff, que queria um móvel confortável para seu estúdio, o sofá, construído artesanalmente, amargou quase um ano na loja sem vender nada.

“As dondocas olhavam a vitrine e lamentavam-se de que a loja Oca tinha começado bem, mas que, agora, estava com aquela coisa gorda, que, diziam, não dava nem para cachorro”, lembra Rodrigues.

E foi um cachorro mesmo que experimentou o móvel, antes da sessão de fotos na praia. “Num dia de manhã, o marceneiro da fábrica Taba, Antonio Viana, me ligou dizendo que o Duque tinha tirado o selo da Mole. Não entendi. Quando cheguei à fábrica, vi que Duque era o cachorro e que ele tinha dormido no sofá. Achei engraçada a frase. Por que Mole? É todo molengo, disse Viana”. Sergio assentiu. Sofá Mole.

Em 1961, o então governador da Guanabara Carlos Lacerda sugeriu que Rodrigues inscrevesse a poltrona Mole no concurso italiano da Bienal de Cantu, na Itália. Entre mais de 400 inscritos, a Mole ganhou o primeiro lugar.

Para a filósofa e historiadora do design Maria Cecília Loschiavo dos Santos, Sergio Rodrigues forma, com Joaquim Tenreiro e José Zanine Caldas, o trio que funda o design brasileiro. “Suas cadeiras romperam com o sentar bem-comportado e anteciparam as demandas pela informalidade dos interiores dos jovens de classe média intelectualizada nos anos 1980, quando os almofadões se espalhavam pelo chão”, escreve a crítica de design Adélia Borges no livro sobre Rodrigues publicado pela coleção Arquitetura e Design, editada pela Viana & Mosley.

À MÃO LIVRE

Com mais de 1500 modelos de objetos e móveis e cerca de 200 casas projetadas, Sergio Rodrigues, aos 81 anos, continua na ativa. Desenha, avalia a produção atual de seus móveis, estuda novos projetos de arquitetura.

No escritório do bairro carioca de Botafogo, a 300 metros da casa onde mora com a mulher, Vera Beatriz, aloja-se no andar superior e mantém distância desinteressada do computador. “Continuo desenhando à mão livre. Herdei isso do meu pai. Ele era ilustrador”, conta.

Depois de passarem pelos anos 1970 e 1980 num sumiço quase absoluto, seus móveis voltaram a ser procurados pelo público, viraram tema de reportagens e passaram a freqüentar editoriais de moda e decoração.

Nascido em 1927, Sergio é neto do jornalista Mário Rodrigues, criador do jornal “A Crítica”, sobrinho do dramaturgo Nelson Rodrigues e do jornalista Mario Rodrigues Filho e filho do artista plástico e ilustrador Roberto Rodrigues, assassinado na redação de “A Crítica” com um tiro que era para o pai de Roberto, avô de Sergio.

O designer recebeu Serafina em seu ateliê, no Rio. A seguir, trechos da conversa.

O que é brasileiro na sua obra?

É curioso. Uma vez, numa reunião no Instituto dos Arquitetos do Brasil, em São Paulo, o pessoal começou a falar que entre os designers só eu procurava a brasilidade. Eu fiquei bem quieto. Aí se levantou o Michel Arnoult, grande designer, grande amigo, e disse que eles estavam todos enganados: “O móvel de Sergio Rodrigues não é brasileiro. É de Sergio Rodrigues”. Eu diria que a minha procura era por matérias que caracterizam a brasilidade. ?As madeiras nobres, a palhinha, que vem da Índia, mas que depois passa pela Europa. Acho que ficou alguma coisa característica. A Mole, por exemplo, segundo o Odilon Coutinho, tem muito de brasileiro. Não só a estrutura, não só o almofadão, não só as correias, como se fossem uns catres. Mas também algo como que vindo da senzala, a luxúria, pela maneira que o pessoal se jogava, a informalidade. Antes da Mole não tinha nada assim no Brasil.

Que grau de consciência você tinha sobre a mudança que estava criando?

Foi absolutamente inconsciente. Quando era garoto, eu freqüentava o ateliê do meu tio -que não era marceneiro, era rico- e fazia experiências de móveis com dois marceneiros portugueses de alto nível. Eu gostava daquilo. Minha casa era uma construção antiga, de meados do século 19, e tinha móveis de diversas origens. Copiados e também originais. Sempre me interessou ajeitar as coisas, tenho desde sempre essa procura pelo conforto. Como o camarada ia ler sem luz? Como é que vai colocar duas poltronas lado a lado? E para as pessoas conversarem? Mas a Bauhaus estabeleceu essa pureza incrível. Os móveis eram colocados paralelos, perpendiculares, em posições exatas, forçando um modo de vida estranho. Toda vez que chega uma pessoa você tem de virar as cadeiras…

E a arquitetura?

De 60 para cá fiz cerca de 200 casas com o sistema de pré-fabricação que eu criei e também pelo sistema tradicional. Fiz a casa do Francis Hime, da Regina Casé. Eu estudo muito o interior. Como a pessoa vai viver. Não é só um jogo de tantos banheiros, quartos e tal. É a vida que acontece lá ?dentro que me interessa.

Comentário: A busca da verdade da arquitetura

MARA GAMA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Joaquim Guedes é um dos grandes nomes da arquitetura paulista. Com obras de residências, escolas, cidades, sua produção é de extrema qualidade formal e rigor técnico e revela um arquiteto conectado aos aspectos materiais da produção.

De destacada atuação em São Paulo, conquistou expressão nacional como urbanista, tendo a oportunidade -e o prazer, imagino, por sua notória preocupação com detalhes e a economia industrial de uma grande da obra- de conceber cidades inteiras, desde o primeiro traço até seus edifícios, como ocorreu em Caraíba (BA), Carajás (PA), Marabá (PA) entre 1970 e 1985.

Formado pela terceira turma de arquitetura pela FAU/USP (1954), fez doutorado em planejamento urbano pela FAU (1972) e pós-doutorado (1988). Aluno de Vilanova Artigas (1915-1985), o mestre de fato e de direito de toda a escola paulista, Guedes trilhou caminho próprio, distanciando-se de seus contemporâneos e da influência quase hegemônica do suíço Le Corbusier (1887-1965) e aproximando-se da arquitetura orgânica de Alvar Aalto (1899-1976). A atividade de urbanista pode ser a chave para explicar o interesse de Guedes por Aalto. Também orientado pela funcionalidade e a individualidade das obras arquitetônicas, Aalto era profundamente envolvido com o estudo do relacionamento dos edifícios com o ambiente.

Do ponto de vista programático, Guedes se pautou pela busca da “verdade da arquitetura”, o que significa o desnudamento completo das estruturas nas obras, a exibição dos componentes e aspectos construtivos fundamentais e a recusa ao ornamento, ao formalismo e a aspectos cenográficos. Na opinião do aluno e colega, mestre e doutor pela USP e professor do Mackenzie Gilberto Belleza, o ícone maior da obra de Guedes é a casa Liliana Guedes, do Morumbi, de 1968.

Apoiada nos quatro pilares – parâmetro “clássico” da arquitetura paulista-, tem a estrutura em modulação, pilotis, grandes aberturas, jardins e sua concepção e obra pautaram-se pela perda mínima de material.

Sobre Guedes, escreve Mônica Junqueira de Camargo, para a série “Espaços da Arte Brasileira”, da Cosac & Naify: “Um bom projeto de arquitetura deve exprimir conceitos e Guedes, além de deixar clara a base conceitual que orientou o ato criativo (…), faz questão de evidenciar a razão que para ele todas as formas têm, sempre relacionadas às necessidades do dia-a-dia de atividades humanas específicas”.

MARA GAMA é gerente-geral de Qualidade de Conteúdo do UOL e assina o Blogdesign (http://blogdesign.blog.uol.com.br)

A busca da verdade da arquitetura – Joaquim Guedes

 
Joaquim Guedes é um dos grandes nomes da arquitetura paulista. Com obras de residências, escolas, cidades, sua produção é de extrema qualidade formal e rigor técnico e revela um arquiteto conectado aos aspectos materiais da produção.
De destacada atuação em São Paulo, conquistou expressão nacional como urbanista, tendo a oportunidade -e o prazer, imagino, por sua notória preocupação com detalhes e a economia industrial de uma grande da obra- de conceber cidades inteiras, desde o primeiro traço até seus edifícios, como ocorreu em Caraíba (BA), Carajás (PA), Marabá (PA) entre 1970 e 1985.
Formado pela terceira turma de arquitetura pela FAU/USP (1954), fez doutorado em planejamento urbano pela FAU (1972) e pós-doutorado (1988). Aluno de Vilanova Artigas (1915-1985), o mestre de fato e de direito de toda a escola paulista, Guedes trilhou caminho próprio, distanciando-se de seus contemporâneos e da influência quase hegemônica do suíço Le Corbusier (1887-1965) e aproximando-se da arquitetura orgânica de Alvar Aalto (1899-1976). A atividade de urbanista pode ser a chave para explicar o interesse de Guedes por Aalto. Também orientado pela funcionalidade e a individualidade das obras arquitetônicas, Aalto era profundamente envolvido com o estudo do relacionamento dos edifícios com o ambiente.
Do ponto de vista programático, Guedes se pautou pela busca da “verdade da arquitetura”, o que significa o desnudamento completo das estruturas nas obras, a exibição dos componentes e aspectos construtivos fundamentais e a recusa ao ornamento, ao formalismo e a aspectos cenográficos. Na opinião do aluno e colega, mestre e doutor pela USP e professor do Mackenzie Gilberto Belleza, o ícone maior da obra de Guedes é a casa Liliana Guedes, do Morumbi, de 1968.
Apoiada nos quatro pilares – parâmetro “clássico” da arquitetura paulista-, tem a estrutura em modulação, pilotis, grandes aberturas, jardins e sua concepção e obra pautaram-se pela perda mínima de material.
Sobre Guedes, escreve Mônica Junqueira de Camargo, para a série “Espaços da Arte Brasileira”, da Cosac & Naify: “Um bom projeto de arquitetura deve exprimir conceitos e Guedes, além de deixar clara a base conceitual que orientou o ato criativo (…), faz questão de evidenciar a razão que para ele todas as formas têm, sempre relacionadas às necessidades do dia-a-dia de atividades humanas específicas”. (artigo para a Folha de S. Paulo)

Design: Luz dirigida

Duas trajetórias diferentes mostram bom design e sinais de vida no panorama da iluminação nacional

por MARA GAMA

Eles dão diretrizes de estilo e tecnologia e colocam em circulação bom desenho e inovação em duas das mais destacadas empresas que atuam na área de iluminação do país. E continuam desenhando.

Na direção de criação da Dominici, uma das marcas mais antigas de decoração, representante de clássicos do design internacional, está Baba Vacaro, designer e autora da “Essayage”, lançada em 2007.

Na premiada Lumini, com 28 anos e referência no desenvolvimento de tecnologia de luz no país, o designer Fernando Prado, autor da “Bossa” (2006), coordena engenheiros, técnicos de produção e desenhistas na área de produtos.

Os dois apontam dificuldades em produzir no Brasil, pelo grau de sofisticação tecnológica demandada pela indústria de iluminação, e consideram como riqueza a capacidade de driblar a mesma dificuldade. Fato é que o mercado é hoje mais rico em opções para o consumidor.

“Todos querem e precisam ficar mais em casa e querem uma casa que atenda suas necessidades, objetivas e subjetivas. Aí se encaixam os produtos de iluminação, que fazem toda a diferença no bem-estar físico e psicológico das pessoas”, diz Baba Vacaro.

“As indústrias de iluminação ainda estão atrasadas na tecnologia de produção, comparadas a outros setores, e uma das particularidades dos projetos de luminárias no Brasil é o uso da criatividade para driblar as limitações dessa indústria”, diz Prado.

A Lumini atua em várias cidades brasileiras e em 27 países. Teve cerca de 400 produtos desenhados e produzidos no país nos últimos quatro anos e recebeu cinco vezes o prêmio IF (dois ouros), duas vezes o prêmio Red Dot e três vezes o primeiro prêmio do Museu da Casa Brasileira (2003, 2004 e 2005), entre outros.

Com fábrica própria, a Lumini terceiriza apenas processos complexos, como injeção, extrusão e sopro de vidro. Além dos projetos de Fernando Prado, há desenhos de Fabio Falanghe, Giorgio Giorgi, André Wagner e Livio Levi.

“O desafio é usar a tecnologia da indústria sem perder o caráter artístico. Por mais que existam softwares supermodernos, na Lumini, o desenho que vai para quem executa o protótipo é feito à mão; infelizmente (ou felizmente), não sei fazer de outro jeito”, revela Prado.

“Hoje, a função de um produto vai muito além da que conhecíamos no início do século 20. Atualmente, qualquer produto precisa cumprir sua função emocional e, a meu ver, é esse mesmo o grande barato do design. Melhorar a vida das pessoas e, assim, fazê-las mais felizes. Os produtos que envolvem luz já saem na frente no quesito emoção: a luz transforma o produto”, diz Baba Vacaro.

Com 60 anos no mercado brasileiro e lojas próprias em São Paulo e no Rio, a Dominici tem cerca de 180 produtos na carteira entre luminárias de mesa, piso, parede e teto. Metade dos produtos é brasileira, produzida pela própria Dominici. A autoria é de designers como Jum Nakao, José Marton, Flávia Pagotti, Ivana Rosa, Maria Pessoa, Maria Bello e Alex Wiechmann, além de Baba Vacaro, sua diretora de criação.

Os outros 50% são de peças emblemáticas da história do design de iluminação, de autores como Verner Panton, Philippe Starck, Acchille Castiglione, Jasper Morrison e George Nelson e designers jovens como Paul Cocksedge, com sua “Styrene”, e David Trubridge, com a “Coral”, entre outros.

E as criações próprias? “Gosto da ‘Essayage’ porque é racional e emocional a um só tempo; lembra uma roupa em ponto de prova, tem a graça da costura, você pode brincar com a forma final dela, mas, ao mesmo tempo, é uma luminária muito boa e eficiente e tira leite de pedra: faz um ótimo ‘serviço’ ao iluminar de modo dirigido e difuso, é muito simples de fabricar, ‘low-tech’ e utiliza como difusor um material tecnológico que tem as melhores características do tecido e do papel”, diz Baba.

“As luminárias ‘Bossa’ e ‘Luna’ são mais representativas, pelos prêmios conquistados e pela divulgação. O que mais me fascina no design de luminárias é que não desenhamos apenas a forma das peças, mas também sua luz, e essa luz tem o poder de mudar o humor das pessoas, isso é muito estimulante”, diz Prado.

MARA GAMA é jornalista com especialização em design e gerente-geral de qualidade de conteúdo do UOL.

Design: Palafitas hi-tech

Projeto premiado propõe o uso do aço para construir prédio sustentável

por MARA GAMA

A um metro e meio acima do solo, apoiados como palafitas, prédios de apartamentos vão misturar estrutura hi-tech de aço e idéias da cultura construtiva regional no bairro de Jiquiá, a 7 km da área central de Recife, em Pernambuco.

Viabilidade, mobilidade da planta interna, ventilação natural e adequação ao espaço e cultura locais foram algumas das características apontadas pelo júri internacional que deu o primeiro prêmio de 50 mil euros ao projeto do escritório paulistano Andrade-Morettin, no 2º Concurso Internacional de Arquitetura Sustentável para Moradia.

Arquitetura “essencial” ou “elementar”. Assim o arquiteto Vinicius Andrade, um dos autores, define o trabalho. A idéia é que a eficiência construtiva estrutural, econômica, ecológica fundamente-o, do ponto de vista material e do programa de intenções. O escritório tem outro exemplo de arquitetura essencial, uma residência recém-construída no litoral de São Paulo.

O projeto de Recife pode dar um “tilt” na imagem mais difundida e imediata do que seja ecológico, por usar aço e material industrializado. “Acho bom que se desfaça o mito de que sustentabilidade é fazer casa de madeira em terra socada. O globo é uma superfície finita. Se você pensa em escala global, tem de adensar e ter uma linha de produção industrial para a construção, como resposta econômica e eficaz ao déficit habitacional”, diz Andrade.

O arquiteto defende que, na análise comparativa entre os sistemas e materiais construtivos, o aço vence. “A extração do aço é mais limpa que a extração do componente que gera o concreto, consome menos energia e deixa menos resíduo. No canteiro, os componentes pré-fabricados proporcionam rapidez, racionalidade e uma obra seca”, afirma o arquiteto.

Obra seca é o que o nome diz mesmo: aquela em que se evita o uso da grande quantidade de água necessária para preparar cimento, argamassa ou reboco. A obra seca economiza água tratada e devolve menos água contaminada ao sistema captador de esgoto da cidade.

Segundo o projeto para o conjunto de Recife, todos os componentes serão aparafusados, rebitados ou montados. O ciclo de vida é totalmente diferente da alvenaria. As peças foram desenhadas para permitir montagem e desmontagem, reaproveitamento em outras estruturas de outros projetos e, ao final, a possibilidade de refundir para produzir outros componentes.

Para liberar o terreno e evitar aterros, que danificam flora e fauna e pressionam a água a encontrar outros caminhos, o projeto opta pela construção suspensa, apoiada nas fundações. Por causa da intensa insolação, usando também um artifício bastante empregado na arquitetura local, os prédios têm cobertura ampla, solta e sem fechamentos, que proporcionam o empilhamento de lajes sombreadas.

A cobertura, de telha metálica de aço termoacústico, é estrutural (ou seja, não precisa de armação de madeira para sustentar), feita em vão, e tem uma calha central para captar água para reuso.

“A construção civil é uma das atividades econômicas que mais consomem recursos no planeta. O Brasil tem excelência no concreto e pouca tradição no uso de aço. É fundamental diversificar. Ao projetar para as metrópoles da complexidade, não é possível pensar em soluções estanques”, defende Andrade.

Promovido pela ONG Living Steel, formada por grandes companhias de aço para difundir o uso do material na construção habitacional, o concurso começou com uma convocação internacional aberta, a partir da qual foram selecionados 18 escritórios, incumbidos de projetar para três terrenos específicos, no Brasil, na China e na Inglaterra.

A construção dos 192 apartamentos de Recife pode ser realizada em apenas seis meses. As obras devem começar daqui a um ano. Os apartamentos terão 55 m2 e serão agrupados em prédios de 24 a 40 unidades.