Peças únicas e palestras são destaques do Design São Paulo

Evento, que começa hoje, quer ser um fórum de discussão e espaço de encontro de artistas

Salão vai até o dia 19, no parque Ibirapuera; programação reúne o designer Gijs Bakker e os irmãos Campana

 

Fotos Divulgação

“Bamboo Blow Up Family”, dos irmãos Campana



MARA GAMA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Peças únicas ou de séries limitadas são as estrelas do salão Design São Paulo, que começa hoje na Oca, no parque Ibirapuera.

O salão, contudo, quer ir além e ser um fórum de discussão e espaço de encontros, mostras, debates, palestras e uma oficina.

Homenageados, os irmãos Campana terão a mostra De Fio em Fio, recorte temático de sua obra, com curadoria feita pela jornalista Maria Helena Estrada.

Também serão anunciados no salão os vencedores do Top XXI Design Brasil.

A programação é promissora. Um dos destaques é a palestra com o holandês Gijs Bakker, fundador da companhia Droog Design, que dirige o projeto Yii Taiwan, que une designers para renovar o artesanato tradicional.

Estão programadas mesas sobre design e arte, gestão e vertentes do design, com participações de Heloisa Crocco, Fred Gelli, Marcio Kogan, Guto Indio da Costa, entre outros. A designer Mana Bernardes coordena oficina com material de uso comum.

No dia 18, acontece um Pecha Kucha, formato de apresentações de projetos feitas pelos próprios autores.

Estão escalados Jum Nakao, Renato Imbroisi, Marcelo Rosembaum, Fernando Prado, Baba Vacaro e Claudia Moreira Salles.

O salão foi concebido pelo colecionador de arte Waldick Jatobá, pela produtora Katia d” Avillez e pela economista Lídia Goldenstein. Eles se associaram à Luminosidade, de Paulo Borges, que faz a São Paulo Fashion Week.

O formato é semelhante ao de feiras como a SP Arte, que está na sétima edição e que levou 18 mil pessoas ao pavilhão da Bienal em maio passado, com 89 expositores. Para o salão Design, é esperado um público de 2.000 pessoas por dia.

AUTORES

Serão comercializadas 120 peças únicas ou de séries limitadas de até 150 exemplares. Entre os autores estão Oscar Niemeyer, Joaquim Tenreiro, Sergio Rodrigues, Jorge Zalszupin, Jean Gillon, John Gray, Zanine Caldas, irmãos Campana, Claudia Moreira Salles, Hugo França, Maurício Arruda, Gerson de Oliveira e Luciana Martins.

O salão também incentivou conexões entre criadores e empresas.

Entre os resultados dessa experiência estão um banco de Marcius Galan para a galeria Luisa Strina e a luminária do designer Antonio Bernardo para a empresa Lumini.

Bagagem [compras mundo afora]: Mercado sueco

Loja de design na Suécia renova coleção toda semana e lança criadores

MARA GAMA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Novos e selecionados, toda semana. É o slogan da rede sueca de lojas DesignTorget (http://www.designtorget.se), com sede em Estocolmo, filiais em Malmö, Gothenburg, Uppsala e mais quatro cidades da Suécia e, desde o ano passado, também em Oslo, Noruega.

E a ideia é levada a sério. Na DesignTorget há uma grande quantidade e variedade de objetos para cozinha, banheiro, brinquedos, papelaria, tecidos, relógios, itens de jardinagem, bolsas, sacolas, cabides, livros.

Semanalmente, novos produtos aportam nas prateleiras. Para os viajantes em busca de presentes e para os novidadeiros em geral, belezura. Para manter essa renovação, há um projeto diferenciado de loja, que se orgulha da sua conexão direta com os designers criadores dos objetos e com as escolas de design da Suécia.

Fundada há 16 anos, tendo como primeiro espaço o piso térreo da Casa de Cultura de Estocolomo, a DesignTorget nasceu em plena recessão econômica, como mercado aberto e alternativo para que os designers pudessem vender seus objetos. Daí o nome. Torget é sinônimo de mercado, como local de venda. Os idealizadores não estão mais à frente do negócio, mas o espírito original se mantém, reformulado em bases muito interessantes.

Toda semana, uma comissão de designers profissionais se reúne e seleciona itens para aquisição e venda. Funciona como um concurso. Os candidatos enviam seus projetos e, caso aceitos, são vendidos em consignação. Os produtos, de designers novos ou já famosos, ficam por tempo limitado à venda, dependendo da demanda. O porta-bananas da foto é um dos campeões de vendas. 42 mil unidades, em três anos.

Funcionalidade, novas ideias, incentivo à produção local e projetos bem-humorados são alguns tópicos avaliados. Outra exigência para ser aceito é que a DesignTorget seja a primeira a vender o objeto.

Além dessa forma diferente de captar projetos, a loja exibe, junto aos produtos recentemente adquiridos, cartões, em formato de postais, com biografia dos designers autores. Anualmente, segundo a coordenadora de marketing, Malin Löfmark, a rede lança cerca de 20 designers no mercado.

Alguns objetos que são vendidos na DesignTorget estarão expostos na mostra “Sementes Suecas – a Suécia desenha para crianças”, que começa na próxima terça, dia 17, no Museu da Casa Brasileira (av. Brig. Faria Lima, 2.705), em São Paulo.

MARA GAMA é ombudsman do UOL e edita o blog http://blogdesign.blog.uol.com.br/

Fino: Pura moleza

por MARA GAMA

Precursor da poltrona mais famosa do design brasileiro, o sofá Mole foi batizado há 50 anos, no mar do Leblon

A maré subiu e Sergio Rodrigues tentou proteger o sofá das ondas do mar na praia do Leblon. Atrás da câmera, com os pés na areia, o fotógrafo Otto Stupakoff ajustava as lentes. Não deu tempo. Uma onda rasteira veio e empapou o sofá, diante de um público de curiosos que assistia à primeira sessão de fotos para a divulgação do sofá Mole, projeto do qual mais tarde derivaria na poltrona Mole. A idéia inusitada -na época- das fotos na praia foi de Rodrigues. “Vai ficar bem brasileiro”, concordou Stupakoff.

O ano era 1958. Reportagem publicada no “Correio da Manhã”, segundo Rodrigues, fazia troça com a sessão de fotos e trazia um comentário de uma senhora que estava passando no local: “Grã-finos agora estão jogando móveis ao mar para Iemanjá, é?”

“No fim foi uma promoção muito boa. Estávamos inaugurando uma mostra na loja no dia seguinte e acabamos colocando o móvel molhado mesmo. Foi um sucesso a exposição”, lembra Rodrigues.

Pela primeira vez o sofá Mole era exposto ao público. Criado um ano antes, em 1957, a pedido de Stupakoff, que queria um móvel confortável para seu estúdio, o sofá, construído artesanalmente, amargou quase um ano na loja sem vender nada.

“As dondocas olhavam a vitrine e lamentavam-se de que a loja Oca tinha começado bem, mas que, agora, estava com aquela coisa gorda, que, diziam, não dava nem para cachorro”, lembra Rodrigues.

E foi um cachorro mesmo que experimentou o móvel, antes da sessão de fotos na praia. “Num dia de manhã, o marceneiro da fábrica Taba, Antonio Viana, me ligou dizendo que o Duque tinha tirado o selo da Mole. Não entendi. Quando cheguei à fábrica, vi que Duque era o cachorro e que ele tinha dormido no sofá. Achei engraçada a frase. Por que Mole? É todo molengo, disse Viana”. Sergio assentiu. Sofá Mole.

Em 1961, o então governador da Guanabara Carlos Lacerda sugeriu que Rodrigues inscrevesse a poltrona Mole no concurso italiano da Bienal de Cantu, na Itália. Entre mais de 400 inscritos, a Mole ganhou o primeiro lugar.

Para a filósofa e historiadora do design Maria Cecília Loschiavo dos Santos, Sergio Rodrigues forma, com Joaquim Tenreiro e José Zanine Caldas, o trio que funda o design brasileiro. “Suas cadeiras romperam com o sentar bem-comportado e anteciparam as demandas pela informalidade dos interiores dos jovens de classe média intelectualizada nos anos 1980, quando os almofadões se espalhavam pelo chão”, escreve a crítica de design Adélia Borges no livro sobre Rodrigues publicado pela coleção Arquitetura e Design, editada pela Viana & Mosley.

À MÃO LIVRE

Com mais de 1500 modelos de objetos e móveis e cerca de 200 casas projetadas, Sergio Rodrigues, aos 81 anos, continua na ativa. Desenha, avalia a produção atual de seus móveis, estuda novos projetos de arquitetura.

No escritório do bairro carioca de Botafogo, a 300 metros da casa onde mora com a mulher, Vera Beatriz, aloja-se no andar superior e mantém distância desinteressada do computador. “Continuo desenhando à mão livre. Herdei isso do meu pai. Ele era ilustrador”, conta.

Depois de passarem pelos anos 1970 e 1980 num sumiço quase absoluto, seus móveis voltaram a ser procurados pelo público, viraram tema de reportagens e passaram a freqüentar editoriais de moda e decoração.

Nascido em 1927, Sergio é neto do jornalista Mário Rodrigues, criador do jornal “A Crítica”, sobrinho do dramaturgo Nelson Rodrigues e do jornalista Mario Rodrigues Filho e filho do artista plástico e ilustrador Roberto Rodrigues, assassinado na redação de “A Crítica” com um tiro que era para o pai de Roberto, avô de Sergio.

O designer recebeu Serafina em seu ateliê, no Rio. A seguir, trechos da conversa.

O que é brasileiro na sua obra?

É curioso. Uma vez, numa reunião no Instituto dos Arquitetos do Brasil, em São Paulo, o pessoal começou a falar que entre os designers só eu procurava a brasilidade. Eu fiquei bem quieto. Aí se levantou o Michel Arnoult, grande designer, grande amigo, e disse que eles estavam todos enganados: “O móvel de Sergio Rodrigues não é brasileiro. É de Sergio Rodrigues”. Eu diria que a minha procura era por matérias que caracterizam a brasilidade. ?As madeiras nobres, a palhinha, que vem da Índia, mas que depois passa pela Europa. Acho que ficou alguma coisa característica. A Mole, por exemplo, segundo o Odilon Coutinho, tem muito de brasileiro. Não só a estrutura, não só o almofadão, não só as correias, como se fossem uns catres. Mas também algo como que vindo da senzala, a luxúria, pela maneira que o pessoal se jogava, a informalidade. Antes da Mole não tinha nada assim no Brasil.

Que grau de consciência você tinha sobre a mudança que estava criando?

Foi absolutamente inconsciente. Quando era garoto, eu freqüentava o ateliê do meu tio -que não era marceneiro, era rico- e fazia experiências de móveis com dois marceneiros portugueses de alto nível. Eu gostava daquilo. Minha casa era uma construção antiga, de meados do século 19, e tinha móveis de diversas origens. Copiados e também originais. Sempre me interessou ajeitar as coisas, tenho desde sempre essa procura pelo conforto. Como o camarada ia ler sem luz? Como é que vai colocar duas poltronas lado a lado? E para as pessoas conversarem? Mas a Bauhaus estabeleceu essa pureza incrível. Os móveis eram colocados paralelos, perpendiculares, em posições exatas, forçando um modo de vida estranho. Toda vez que chega uma pessoa você tem de virar as cadeiras…

E a arquitetura?

De 60 para cá fiz cerca de 200 casas com o sistema de pré-fabricação que eu criei e também pelo sistema tradicional. Fiz a casa do Francis Hime, da Regina Casé. Eu estudo muito o interior. Como a pessoa vai viver. Não é só um jogo de tantos banheiros, quartos e tal. É a vida que acontece lá ?dentro que me interessa.

Comentário: A busca da verdade da arquitetura

MARA GAMA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Joaquim Guedes é um dos grandes nomes da arquitetura paulista. Com obras de residências, escolas, cidades, sua produção é de extrema qualidade formal e rigor técnico e revela um arquiteto conectado aos aspectos materiais da produção.

De destacada atuação em São Paulo, conquistou expressão nacional como urbanista, tendo a oportunidade -e o prazer, imagino, por sua notória preocupação com detalhes e a economia industrial de uma grande da obra- de conceber cidades inteiras, desde o primeiro traço até seus edifícios, como ocorreu em Caraíba (BA), Carajás (PA), Marabá (PA) entre 1970 e 1985.

Formado pela terceira turma de arquitetura pela FAU/USP (1954), fez doutorado em planejamento urbano pela FAU (1972) e pós-doutorado (1988). Aluno de Vilanova Artigas (1915-1985), o mestre de fato e de direito de toda a escola paulista, Guedes trilhou caminho próprio, distanciando-se de seus contemporâneos e da influência quase hegemônica do suíço Le Corbusier (1887-1965) e aproximando-se da arquitetura orgânica de Alvar Aalto (1899-1976). A atividade de urbanista pode ser a chave para explicar o interesse de Guedes por Aalto. Também orientado pela funcionalidade e a individualidade das obras arquitetônicas, Aalto era profundamente envolvido com o estudo do relacionamento dos edifícios com o ambiente.

Do ponto de vista programático, Guedes se pautou pela busca da “verdade da arquitetura”, o que significa o desnudamento completo das estruturas nas obras, a exibição dos componentes e aspectos construtivos fundamentais e a recusa ao ornamento, ao formalismo e a aspectos cenográficos. Na opinião do aluno e colega, mestre e doutor pela USP e professor do Mackenzie Gilberto Belleza, o ícone maior da obra de Guedes é a casa Liliana Guedes, do Morumbi, de 1968.

Apoiada nos quatro pilares – parâmetro “clássico” da arquitetura paulista-, tem a estrutura em modulação, pilotis, grandes aberturas, jardins e sua concepção e obra pautaram-se pela perda mínima de material.

Sobre Guedes, escreve Mônica Junqueira de Camargo, para a série “Espaços da Arte Brasileira”, da Cosac & Naify: “Um bom projeto de arquitetura deve exprimir conceitos e Guedes, além de deixar clara a base conceitual que orientou o ato criativo (…), faz questão de evidenciar a razão que para ele todas as formas têm, sempre relacionadas às necessidades do dia-a-dia de atividades humanas específicas”.

MARA GAMA é gerente-geral de Qualidade de Conteúdo do UOL e assina o Blogdesign (http://blogdesign.blog.uol.com.br)

A busca da verdade da arquitetura – Joaquim Guedes

 
Joaquim Guedes é um dos grandes nomes da arquitetura paulista. Com obras de residências, escolas, cidades, sua produção é de extrema qualidade formal e rigor técnico e revela um arquiteto conectado aos aspectos materiais da produção.
De destacada atuação em São Paulo, conquistou expressão nacional como urbanista, tendo a oportunidade -e o prazer, imagino, por sua notória preocupação com detalhes e a economia industrial de uma grande da obra- de conceber cidades inteiras, desde o primeiro traço até seus edifícios, como ocorreu em Caraíba (BA), Carajás (PA), Marabá (PA) entre 1970 e 1985.
Formado pela terceira turma de arquitetura pela FAU/USP (1954), fez doutorado em planejamento urbano pela FAU (1972) e pós-doutorado (1988). Aluno de Vilanova Artigas (1915-1985), o mestre de fato e de direito de toda a escola paulista, Guedes trilhou caminho próprio, distanciando-se de seus contemporâneos e da influência quase hegemônica do suíço Le Corbusier (1887-1965) e aproximando-se da arquitetura orgânica de Alvar Aalto (1899-1976). A atividade de urbanista pode ser a chave para explicar o interesse de Guedes por Aalto. Também orientado pela funcionalidade e a individualidade das obras arquitetônicas, Aalto era profundamente envolvido com o estudo do relacionamento dos edifícios com o ambiente.
Do ponto de vista programático, Guedes se pautou pela busca da “verdade da arquitetura”, o que significa o desnudamento completo das estruturas nas obras, a exibição dos componentes e aspectos construtivos fundamentais e a recusa ao ornamento, ao formalismo e a aspectos cenográficos. Na opinião do aluno e colega, mestre e doutor pela USP e professor do Mackenzie Gilberto Belleza, o ícone maior da obra de Guedes é a casa Liliana Guedes, do Morumbi, de 1968.
Apoiada nos quatro pilares – parâmetro “clássico” da arquitetura paulista-, tem a estrutura em modulação, pilotis, grandes aberturas, jardins e sua concepção e obra pautaram-se pela perda mínima de material.
Sobre Guedes, escreve Mônica Junqueira de Camargo, para a série “Espaços da Arte Brasileira”, da Cosac & Naify: “Um bom projeto de arquitetura deve exprimir conceitos e Guedes, além de deixar clara a base conceitual que orientou o ato criativo (…), faz questão de evidenciar a razão que para ele todas as formas têm, sempre relacionadas às necessidades do dia-a-dia de atividades humanas específicas”. (artigo para a Folha de S. Paulo)