Portoghesi prega ‘equilíbrio naturalista’

MARA GAMA
EDITORA-ADJUNTA DA ILUSTRADA

A natureza é o assunto mais importante para o arquiteto Paolo Portoghesi, que chegou na segunda-feira a São Paulo.

Com um programa cheio, ele lamenta não ter mais tempo para conhecer o país. Autor de livros e ensaios sobre a arquitetura barroca italiana, Portoghesi se interessa pelas obras de Aleijadinho.

Ele destaca a arquitetura de Oscar Niemeyer como uma das mais importantes do século e confessa que quando viu pela primeira vez, por fotografia, a igreja da Pampulha (de Niemeyer) achou que a arquitetura brasileira fosse a saída: um sinal de alegria “desinibida” contra a solidez “castradora” da arquitetura européia.

Portoghesi prega o equilíbrio naturalista. Para ele, a proteção à natureza é a idéia mais importante que se difundiu nos últimos 20 anos. A seguir, trechos da entrevista.

Folha – O que o sr. quer ver no Brasil?

Paolo Portoghesi – Só estive no Brasil uma vez, há 8 anos, e conheci apenas Salvador. Gostaria de conhecer as obras de Aleijadinho. Mas tenho também o fascínio pela natureza. O Brasil é um lugar onde a natureza se exprime quase com violência.

Folha – O sr. é historiador e teórico da arquitetura. Qual é sua idéia atual de arquitetura?

Portoghesi – Acabo de finalizar um livro no qual estou trabalhando há 20 anos, que se chama “Natureza e Arquitetura”. Será publicado em abril de 1996 na Itália. É dedicado a uma análise comparativa entre a estrutura natural e da estrutura criada pela homem. Na compreensão da natureza está o caminho que a arquitetura deve trilhar. Devemos compreender a harmonia da natureza e suas leis.

Ao mesmo tempo, é necessário ter uma relação de familiaridade com a história, coisa que as gerações passadas tinham espontaneamente. Uma pessoa que construía uma casa sabia como fazê-lo porque fazia mais ou menos como seu pai e seu avô. Agora, nós temos como princípio fazê-la diferente. Precisaríamos manter o aspecto criativo da modernidade, a vontade de colocar tudo em discussão, mas também prestigiar o que foi feito antes de nós.

Folha – Como obter esse equilíbrio?

Portoghesi – Com uma arquitetura que responda às exigências locais.

Poderia citar o meu caminho, mas não quero ser tomado como modelo. Acho que a arquitetura é sempre mais que uma coisa individual de um arquiteto. Deve ser reconhecida pelo lugar onde surge e pelo propósito que tem, porque senão se reduz a um fato comercial, de moda. Se uma pessoa se veste de Valentino e outra de Dior, está tudo bem, a variedade até faz vista numa festa, mas uma cidade é uma coisa que dura, que tem um caráter coletivo.

Folha – O sr. vê essas preocupações na produção atual?

Portoghesi – Não nas coisas mais aparentes. Eu, até por ser historiador, tenho que folhear as revistas. Mas o que há de válido hoje não se encontra nessa passarela de modelos que são as revistas. Se vêm vestidos de noite, jóias falsas, o alternar-se das modas. Mas, se você viaja pelo mundo, de tanto em tanto se dá conta que há uma fábrica nova que está inserida na paisagem e que não perturba essa paisagem. Eu acredito que o futuro da arquitetura deva ser procurado nesses lugares e não na exibição.

Folha – Poderia dar exemplos dessas soluções?

portoghesi – Vejo coisas muito interessantes na Hungria. Com o uso da madeira, uma dezena de arquitetos dá sinais de vitalidade. Vejo também a vitalidade de alguns como Frank Gehry (arquiteto e designer canadense associado ao desconstrutivismo), apesar de não adotar os cânones de sua escola.

Folha – Que arquitetura terá influência no próximo século?

Portoghesi – Frank Lloyd Wright (1867-1959) ensinou como sentir a dimensão do corpo humano e projetá-la em suas obras. Louis Kahn (1901-1974) evocou a forma de uma maneira simples e eficaz. Eu diria também que Niemeyer teve a capacidade de utilizar a curva, de colher estruturas naturais que parecem ser resultado de liberdade absoluta.
Nos anos de ouro da arquitetura brasileira -anos 40 a 60- o Brasil era a grande esperança de superar o racionalismo em uma forma nova de naturalismo vivaz, alegre.

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Portoghesi dá palestra e expõe fotos em São Paulo

MARA GAMA
EDITORA-ADJUNTA DA ILUSTRADA

O arquiteto e professor italiano Paolo Portoghesi, 64, chega a São Paulo no próximo dia 28 de agosto, para abrir uma exposição de painéis fotográficos e objetos, no Museu da Casa Brasileira, dia 30.

Portoghesi é um dos mais importantes arquitetos italianos da atualidade. Começou a projetar no fim dos anos 60, construiu centenas de casas e centros residenciais e esportivos na Itália, participou de bienais de Veneza -foi seu presidente no começo dos anos 80- e fez vários projetos cenográficos.

Uma de suas criações mais famosas é a mesquita de Roma, na Itália, que começou a ser construída em 1975 e terminou 1991.

O visitante da exposição no Museu da Casa Brasileira poderá conhecer o projeto da mesquita em seus aspectos estruturais. Onze painéis fotográficos revelam os detalhes do complicado encaixe de arcos e o jogo de luzes da construção, erguida às margens do Tibre.

Na mostra estão também fotos de casas significativas na obra do arquiteto, um centro residencial, dois teatros e um complexo turístico. Candelabros, pratos, porta-retratos e molduras integram também a exposição de objetos.

Mas o que promete são suas palestras: uma na abertura da exposição, com o tema “Natureza e Arquitetura” e outra como aula magna da Faculdade Armando Alvares Penteado (FAAP), com o tema “Natureza e História”.

Portoghesi é também teórico e autor de vários textos importantes sobre a renovação da arquitetura. Seu livro “Dopo l’Architettura Moderna” (Depois da Arquitetura Moderna), editado em 1980, na Itália, analisa historicamente a passagem de um momento de intensa inovação à cristalização de preceitos e discursos que caracterizou o desvirtuamento do funcionalismo na arquitetura.

Professor da Universidade de Gênova, com título honoris causa da Universidade de Lauzanne, Portoghesi escreveu também sobre arquitetura antiga, barroca e sobre a história urbana de Roma.

Como designer, fez móveis e objetos para empresas como Alessi, Poltronova e Cleto Munari.

Palestra: Natureza e Arquitetura
Quando: dia 30, às 19h30
Exposição: fotos e objetos
Quando: de 30 de agosto a 22 de setembro
Onde: Museu da Casa Brasileira (av. Faria Lima, 774, Jardim Europa)
Aula: Natureza e História
Onde: FAAP (r. Alagoas, 903, Higienópolis)
Quando: dia 31, às 19h

Livro relaciona escritórios atuantes

MARA GAMA
DA REDAÇÃO

Livro: Arquitetos do Brasil
Autora: Angela Brant
nº de páginas: 200
Preço: R$ 80
Edição bilíngüe: português e inglês
Lançamento: hoje às 19h
Onde: Museu da Casa Brasileira (av. Faria Lima, 774, Jardim Paulistano)

Uma amostragem extensiva da produção de escritórios de arquitetura nos anos 80 e 90 pode ser conferida no livro “Arquitetos do Brasil” que será lançado hoje.

O livro funciona como um grande catálogo. A autora, Angela Brant, mostra a produção de 47 escritórios, com fotos de casas, prédios, centros comerciais, hotéis, centros esportivos e áreas de lazer, acompanhadas de um pequeno texto, com dados biográficos sobre os arquitetos que formam cada escritório.

É um panorama de trabalhos diversos, sem agrupamento por tendências ou escolha de obras mais representativas.

Brant ressalta, no texto que inicia o volume, que sua seleção dos escritórios privilegiou a maior atuação destes no mercado imobiliário.

A autora descarta, assim, a perspectiva histórica e a análise estilística que são mais comuns nas raras publicações do gênero.

Não por acaso. Na seleção dos escritórios, Brant foi auxiliada pela Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura. É o critério de mercado que dirige a escolha.

Isso não tira o interesse do livro. Numa área tão ávida por publicações, vale o esforço de agrupar e mostrar para o público quem são e o que fazem alguns dos arquitetos do Brasil.

Mas também porque há poucos títulos à disposição do leitor nessa área, publicar um livro desse porte -200 páginas com cerca de 300 fotos coloridas, com anunciados dois anos de pesquisa na produção- sem algumas informações de interesse geral é uma pena.

Para quem gosta de arquitetura, ficam faltando informações sobre projetos, textos mais explicativos para as fotografias das obras e critérios transparentes da seleção de arquitetos.