Embalagens da Piraquê

A jornalista Daniela Name, no blog “Pitadinhas”, escreve sobre a substituição das embalagens dos produtos Piraquê, que são de autoria da artista plástica Lygia Pape: “O Crime da Piraquê”.

“A empresa está substituindo o desenho clássico (do “Presuntinho”) por outro, chupado da embalagem do produto para exportação. O Queijinho, vulgo “Bolinha”, que traz bolinhas de biscoito no fundo vermelho – e que talvez seja a embalagem mais bonita e sedutora da Piraquê – também vai mudar.”

“Além de ser um projeto pior, mais poluído visualmente, que dispersa as informações em vez de concentrá-las, a nova embalagem da Piraquê joga fora a obra de uma grande artista brasileira e parte da nossa história visual. O que muito pouca gente sabe é que toda a identidade da Piraquê – embalagens dos biscoitos, massas, caminhão e logomarca – foi criada por Lygia Pape, uma das maiores artistas que este país já produziu. A atuação de Lygia, falecida em 2004, no ramo da comunicação visual foi tão versátil quanto no das artes plásticas. A partir de 1960, já com boa experiência como programadora visual, atuou na Piraquê.

Daniela entende do assunto. Foi curadora da exposição “Diálogo concreto – Design e construtivismo no Brasil” (que esteve em São Paulo em janeiro de 2009 e no Rio em 2008). Na mostra, ela e Felipe Scovino relacionavam os trabalhos de arte e design de artistas construtivos brasileiros nas décadas de 1950 e 1960 como Geraldo de Barros, Willys de Castro, Waldemar Cordeiro, Amilcar de Castro, Lygia Pape, Abraham Palatnik, Alexandre Wollner, Almir Mavignier, Antonio Maluf, Lygia Clark e Mary Vieira.

Segundo escreve em seu blog, Daniela entrevistou Lygia Pape em 2003. A blogueira reproduz depoimento da artista sobre as conexões entre o trabalho de arte e o design:

“Aquele era um momento em que experimentávamos muito em todas as áreas. Eu, particularmente, nunca gostei de ficar restrita a um suporte. Gostava de fazer com que eles conversassem e acabei levando a escultura para um trabalho como programadora visual. Sempre me diverti muito fazendo as embalagens para a Piraquê. Adorava ir à gráfica, me despencava para Madureira para ver como estavam as provas de impressão. O formato das embalagens, que hoje aparece em qualquer biscoito, foi uma inovação para a época. Depois outras indústrias, como a Aymoré e a Tostines, acabaram copiando a Piraquê. Os desenhos todos coerentes, que hoje foram muito deturpados, também foram uma novidade (…) Aquele vermelho aparecia para valer nas gôndolas dos supermercados. Dava para achar os produtos de longe”.

No texto do blog “Pitadinhas”, Daniela analisa que, nas embalagens da Piraquê, Lygia Pape aplicou os princípios de Gestalt. “A do Goiabinha é outra obra-prima: além de comunicar perfeitamente que se trata de um biscoito recheado, mostrado a foto com o risco da geléia de goiaba, empreende um outro princípio típico da pintura geométrica do período: o ritmo, ditado pela alternância matemática. No Goiabinha, a alternância 4X1 (quatro biscoitos recheados deitados, para um em pé) dá movimento e um ar lúdico à embalagem”.

Vale a leitura!

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