Portoghesi disseca a harmonia de Ouro Preto

MARA GAMA
ENVIADA ESPECIAL A OURO PRETO

“Ouro Preto tem o melhor sintoma da beleza: a unidade na multiplicidade.” Assim, o arquiteto e historiador italiano Paolo Portoghesi definiu a “harmonia arquitetônica” da cidade mineira tombada como patrimônio histórico da humanidade em 1980.

Portoghesi, 64, que abriu no último dia 30 de agosto uma exposição de fotos e objetos, no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, conseguiu, na última sexta-feira, o que mais queria com sua viagem ao Brasil: conhecer e fotografar Ouro Preto.

Surpreso com o que considerou bom estado de conservação da cidade, o arquiteto indicou: “Um dos seus segredos de harmonia é que os seus edifícios monumentais estão ‘culminando’ a natureza, colocados em posições estratégicas”.

Crítico da arquitetura com vários estudos sobre o período barroco (estilo iniciado na Itália por volta de 1600 que se caracteriza por formas curvas exuberantes e realistas), Portoghesi viu com admiração a “integridade” da cidade. “Tive a sensação de visitar Siena (na Itália), que tem extraordinária riqueza de elementos urbanos.”

Segundo o arquiteto, apesar das múltiplas influências que sofreu em sua formação, Ouro Preto conseguiu misturar tudo e escapar do pastiche, por causa da simplicidade. “Há aqui uma linguagem bem precisa: poucos tipos de fachadas e janelas, combinados com originalidade, e pequenas variações na altura das suas molduras”.

Para Portoghesi, Ouro Preto reafirma uma tese sua: “os antigos tinham cidades boas e sociedades ruins. Nós temos sociedades um pouco melhores e cidades péssimas”.

Segundo a mesma tese, o urbanismo tinha um caráter “quase religioso”, que foi perdido na cidade moderna. “Mesmo com sociedades escravocratas e injustas, as cidades exprimiam harmonia porque havia uma linguagem comum. A cidade era um valor. No encontro de duas ruas, por exemplo, se criava um ambiente, uma fonte. Havia conjunto.” Hoje, as cidades não prestam: “avançamos alguma coisa na justiça social, mas as cidades não têm valor. Nós aceitamos que sejam um diagrama fiel das desigualdades”, disse.

Aleijadinho

Portoghesi não se surpreendeu com as obras de Aleijadinho (1738-1814). “Já esperava gostar”. Na observação da igreja de São Francisco de Assis, no entanto, “descobriu” a originalidade do mais importante arquiteto e escultor do barroco brasileiro. “A coisa mais fascinante de suas obras é o contraste do fundo branco dos edifícios com a escultura na pedra local. Ele cria o máximo de tensão plástica. É quase uma abstração -o intervalo branco e depois uma explosão de formas. É isso que o faz tão original”, disse.

Portoghesi associa Aleijadinho ao italiano Francesco Borromini (1599-1667), primeiro e mais inventivo arquiteto barroco romano, também escultor e entalhador.

“Aleijadinho é a fase conclusiva da ‘Parábola de Borromini’: quando na Europa um certo classicismo já tinha vencido o barroco, aqui no Brasil ele continuava a florescer em suas obras originais”.

São Paulo

O contraste maior foi conhecer São Paulo e Ouro Preto na mesma viagem. Para Portoghesi, que deixou o país no sábado, as casas de São Paulo “parecem pertencer a gente vinda de outros planetas, tamanho o conflito de gostos e cores”.

“Uma pessoa de fora pode conhecer pelo menos duas cidades. Uma de boa qualidade de vida com os bairros ricos, cheios de verde, e outra, à margem desta, que é o caos, a degradação. A degradação é o sintoma de sofrimento de uma cidade”, disse.

Mas há alguma coisa que dá “caráter” à São Paulo, na visão do arquiteto. “A avenida Paulista é uma das avenidas mais belas do mundo, porque foi aproveitado o desenho do terreno para o cenário dos edifícios”.

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