Morre Joaquim Guedes em São Paulo

Na foto acima, residência Liliana e Joaquim Guedes, projeto de 1968, em conjunto com Liliana Guedes

O arquiteto e professor aposentado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo) Joaquim Manoel Guedes Sobrinho morreu no domingo, 27, vítima de atropelamento, nas proximidades do apartamento onde morava, na av. 9 de Julho, em São Paulo, segundo a polícia. Guedes tinha 76 anos.

Seu corpo está sendo velado na FAU Maranhão (rua Maranhão, 88, Higienópolis), local onde se formou, na terceira turma da escola.  O enterro será nesta terça, 29 de julho, às 17h,  Cemitério do Araçá, av.Dr. Arnaldo, 666.

Detalhe da casa Liliana e Joaquim Guedes, projeto de 1968

Foi um dos grandes nomes da arquitetura paulista, com obras de residências, escolas, edifícios, em que se destacam o rigor, delicadeza e elegância formais.

Casa Cunha Lima de 1958, onde a estrutura é a arquitetura. Primeira obra em que Guedes usou o concreto armado

Guedes planejou as cidades de Carajás (PA), Marabá (PA), Barcarena (PA) e Caraíba (BA), entre os anos 1970 e 1985.

Vista aérea de Caraíba, na Bahia

Participou também de vários concursos internacionais, entre eles a recuperação urbana da área industrial de Bicocca, ao norte de Milão, na Itália e o Centro Cultural de Lisboa, em 1988.

Residência Anna Mariani, projeto de 1977 em Ibiúna, São Paulo, toda em tijolos

Radical defensor de suas idéias e avesso a contemporizações, em entrevista à Projeto Design, em 2000, Guedes deu sua opinião sobre a produção arquitetônica em São Paulo:

“Fico perplexo com a sociedade paulista, tão dinâmica, a mais rica do país, na hora de fazer a sua cidade, seus edifícios, suas casas, apela e aceita isso que estamos vendo aí como arquitetura. São coisas totalmente inconsistentes em face do nosso clima, inacreditavelmente ruins. Claro que há exceções notáveis, mas vemos muitos edifícios construídos com altura errada, janelas que não deixam ver a paisagem e atrapalham os outros, o sol batendo onde não deve, todas as fachadas com vidros iguais nos quatro diferentes quadrantes. É tudo mal pensado, mal resolvido. E não é difícil exercer bem a profissão, basta atenção, seriedade, intransigência na procura do resultado, coragem. A arquitetura atual segue a moeda, é uma arquitetura monetarista, interessada em certo tipo de status. O arquiteto é instado a fazer uma arquitetura para esse status. As casas que estão surgindo nos Jardins [em São Paulo] são uma vergonha. Reformam casas honestas e as transformam em uma cruza bastarda de vila italiana com pagode ninguém sabe de onde. Um lixo. E a burguesia paulistana não percebe o ridículo em que está incorrendo e a forma ridícula como gasta seu dinheiro. O mais grave disso tudo é que a arquitetura invade o nosso cotidiano. Quem passeia pela cidade é obrigado a ver tudo isso. A profusão de arquiteturas de São Paulo acaba fazendo um conjunto maravilhoso feito de coisas feias. A Paulista, de longe, é uma maravilha, mas se for olhar o detalhe não dá para ver. ”

Guedes estava licenciado do cargo de presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil – IAB. Pretendia concorrer a vereador na Câmara Municipal de São Paulo.

Sobre a obra e a trajetória de Guedes, há o essencial volume assinado por Mônica Junqueira de Camargo para a série Espaços da Arte Brasileira, da Cosac & Naify, cujas fotos estão reproduzidas neste post.

“Dificilmente encontraremos algum projeto, em toda a obra de Joaquim Guedes, que não tenha justificação racional e funcional. Um bom projeto de arquitetura deve necessariamente exprimir conceitos e Guedes, além de deixar clara a base conceitual que orientou o ato criativo, provando que nada é gratuito, faz questão de evidenciar a razão que para ele todas as formas têm, sempre relacionadas às necessidades do dia-a-dia de atividades humanas específicas”.

e mais:

“Constata-se assim, um claro abandono do discurso corbusiano, do homem abstrato, da arquitetura reformadora, a favor da arquitetura de Alvar Aalto, para quem o homem é trabalhado no plano real, da vida cotidiana, requerendo arquitetura para habitar e não para revolucionar, que crie condições de vida em des de impor um padrão de vida”, escreve Mônica sobre a obra do arquiteto.

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