Fino: Pura moleza

por MARA GAMA

Precursor da poltrona mais famosa do design brasileiro, o sofá Mole foi batizado há 50 anos, no mar do Leblon

A maré subiu e Sergio Rodrigues tentou proteger o sofá das ondas do mar na praia do Leblon. Atrás da câmera, com os pés na areia, o fotógrafo Otto Stupakoff ajustava as lentes. Não deu tempo. Uma onda rasteira veio e empapou o sofá, diante de um público de curiosos que assistia à primeira sessão de fotos para a divulgação do sofá Mole, projeto do qual mais tarde derivaria na poltrona Mole. A idéia inusitada -na época- das fotos na praia foi de Rodrigues. “Vai ficar bem brasileiro”, concordou Stupakoff.

O ano era 1958. Reportagem publicada no “Correio da Manhã”, segundo Rodrigues, fazia troça com a sessão de fotos e trazia um comentário de uma senhora que estava passando no local: “Grã-finos agora estão jogando móveis ao mar para Iemanjá, é?”

“No fim foi uma promoção muito boa. Estávamos inaugurando uma mostra na loja no dia seguinte e acabamos colocando o móvel molhado mesmo. Foi um sucesso a exposição”, lembra Rodrigues.

Pela primeira vez o sofá Mole era exposto ao público. Criado um ano antes, em 1957, a pedido de Stupakoff, que queria um móvel confortável para seu estúdio, o sofá, construído artesanalmente, amargou quase um ano na loja sem vender nada.

“As dondocas olhavam a vitrine e lamentavam-se de que a loja Oca tinha começado bem, mas que, agora, estava com aquela coisa gorda, que, diziam, não dava nem para cachorro”, lembra Rodrigues.

E foi um cachorro mesmo que experimentou o móvel, antes da sessão de fotos na praia. “Num dia de manhã, o marceneiro da fábrica Taba, Antonio Viana, me ligou dizendo que o Duque tinha tirado o selo da Mole. Não entendi. Quando cheguei à fábrica, vi que Duque era o cachorro e que ele tinha dormido no sofá. Achei engraçada a frase. Por que Mole? É todo molengo, disse Viana”. Sergio assentiu. Sofá Mole.

Em 1961, o então governador da Guanabara Carlos Lacerda sugeriu que Rodrigues inscrevesse a poltrona Mole no concurso italiano da Bienal de Cantu, na Itália. Entre mais de 400 inscritos, a Mole ganhou o primeiro lugar.

Para a filósofa e historiadora do design Maria Cecília Loschiavo dos Santos, Sergio Rodrigues forma, com Joaquim Tenreiro e José Zanine Caldas, o trio que funda o design brasileiro. “Suas cadeiras romperam com o sentar bem-comportado e anteciparam as demandas pela informalidade dos interiores dos jovens de classe média intelectualizada nos anos 1980, quando os almofadões se espalhavam pelo chão”, escreve a crítica de design Adélia Borges no livro sobre Rodrigues publicado pela coleção Arquitetura e Design, editada pela Viana & Mosley.

À MÃO LIVRE

Com mais de 1500 modelos de objetos e móveis e cerca de 200 casas projetadas, Sergio Rodrigues, aos 81 anos, continua na ativa. Desenha, avalia a produção atual de seus móveis, estuda novos projetos de arquitetura.

No escritório do bairro carioca de Botafogo, a 300 metros da casa onde mora com a mulher, Vera Beatriz, aloja-se no andar superior e mantém distância desinteressada do computador. “Continuo desenhando à mão livre. Herdei isso do meu pai. Ele era ilustrador”, conta.

Depois de passarem pelos anos 1970 e 1980 num sumiço quase absoluto, seus móveis voltaram a ser procurados pelo público, viraram tema de reportagens e passaram a freqüentar editoriais de moda e decoração.

Nascido em 1927, Sergio é neto do jornalista Mário Rodrigues, criador do jornal “A Crítica”, sobrinho do dramaturgo Nelson Rodrigues e do jornalista Mario Rodrigues Filho e filho do artista plástico e ilustrador Roberto Rodrigues, assassinado na redação de “A Crítica” com um tiro que era para o pai de Roberto, avô de Sergio.

O designer recebeu Serafina em seu ateliê, no Rio. A seguir, trechos da conversa.

O que é brasileiro na sua obra?

É curioso. Uma vez, numa reunião no Instituto dos Arquitetos do Brasil, em São Paulo, o pessoal começou a falar que entre os designers só eu procurava a brasilidade. Eu fiquei bem quieto. Aí se levantou o Michel Arnoult, grande designer, grande amigo, e disse que eles estavam todos enganados: “O móvel de Sergio Rodrigues não é brasileiro. É de Sergio Rodrigues”. Eu diria que a minha procura era por matérias que caracterizam a brasilidade. ?As madeiras nobres, a palhinha, que vem da Índia, mas que depois passa pela Europa. Acho que ficou alguma coisa característica. A Mole, por exemplo, segundo o Odilon Coutinho, tem muito de brasileiro. Não só a estrutura, não só o almofadão, não só as correias, como se fossem uns catres. Mas também algo como que vindo da senzala, a luxúria, pela maneira que o pessoal se jogava, a informalidade. Antes da Mole não tinha nada assim no Brasil.

Que grau de consciência você tinha sobre a mudança que estava criando?

Foi absolutamente inconsciente. Quando era garoto, eu freqüentava o ateliê do meu tio -que não era marceneiro, era rico- e fazia experiências de móveis com dois marceneiros portugueses de alto nível. Eu gostava daquilo. Minha casa era uma construção antiga, de meados do século 19, e tinha móveis de diversas origens. Copiados e também originais. Sempre me interessou ajeitar as coisas, tenho desde sempre essa procura pelo conforto. Como o camarada ia ler sem luz? Como é que vai colocar duas poltronas lado a lado? E para as pessoas conversarem? Mas a Bauhaus estabeleceu essa pureza incrível. Os móveis eram colocados paralelos, perpendiculares, em posições exatas, forçando um modo de vida estranho. Toda vez que chega uma pessoa você tem de virar as cadeiras…

E a arquitetura?

De 60 para cá fiz cerca de 200 casas com o sistema de pré-fabricação que eu criei e também pelo sistema tradicional. Fiz a casa do Francis Hime, da Regina Casé. Eu estudo muito o interior. Como a pessoa vai viver. Não é só um jogo de tantos banheiros, quartos e tal. É a vida que acontece lá ?dentro que me interessa.

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