Exército no parque – objetos e imagens para recrutar

Não teria me lembrado que existia um Dia do Exército, 19 de abril, caso o parque Villa-Lobos, em São Paulo, não tivesse sido invadido no fim de semana por tendas, máquinas, objetos, equipamentos, roupas e uma campanha de imagens que eu não conhecia.

Rede de camuflagem feita pelo Arsenal de Guerra de Barueri, SP

Inflável do Recrutinha no parque Villa Lobos, São Paulo, 19 de abril, Dia do Exército

O dia comemora a Batalha dos Guararapes, quando, em 1648, “índios, negros e brancos se uniram para defender o nosso território”, segundo leio na revista “Recrutinha” número 9, que ganhei no parque.

A revista é publicada pelo Centro de Comunicação Social do Exército, com patrocínio da Poupex, do Banco do Brasil.

Já tinha visto no sábado, 18, barracas de acampamento montadas, homens de uniforme, quase todos de óculos escuros, fazendo demonstrações com caminhões camuflados muito altos, tanques, motos, lança-chamas, e distribuindo panfletos. As crianças e os adultos subiam nos caminhões, entravam nos tanques e ficaram seduzidos pelos objetos, posando, experimentando a posição de quem dirige, fazendo fotos com os equipamentos e ao lado dos soldados.

Tanque ligado em pleno parque Villa-Lobos

Fiquei espantada sobretudo com a animação adultos pelos tanques, roupas, armas. Eles sabem que isso não é brincadeira, pensei. Mas talvez a parafernália toda diga muito a um certo espírito de camping cultivado por aí.

Tucano, tecnologia brasileira, com pintura para treinamento

Me perguntei que diabos o Exército estava fazendo no parque. Será que a “ExpoEx” voltou? Aquela que acontecia no Ibirapuera, em plena ditadura, cuja música de trabalho era “ExpoEx, exposição do Exército! Leve seus filhos para ver, para ver e brincar. Leve seus filhos para ver, eles vão adorar!”.

No domingo, depois que um ruído contínuo interrompeu minha caminhada, resolvi pegar os panfletos, perguntar e fotografar. O ruído insuportável era de um tanque. Movido a diesel, que “tem que ser ligado porque não pode ficar muito tempo sem ligar, senão estraga”, segundo um soldado. Fiquei imaginando quantos tanques o Brasil tem, quando usa, para quê e quantas vezes os tanques não usados têm de ser ligados só para não estragar. Quantos litros de diesel vão nessa?

Caminhando um pouco mais fui percebendo a grande quantidade de barracas de atendimento dentário, exames auditivos, hospitais, medição de pressão e várias outras com menção às forças de paz, à atuação na selva e à proteção do meio ambiente.

A operação de recrutamento parece bem pensada: uma barraca de pintura de camuflagem no rosto para crianças estava ao lado da barraca de alistamento, que também propunha uma brincadeira de caça ao tesouro ou coisa assim.

Soldados pintam rostos das crianças

Outra barraca que chamou bem a atenção das crianças foi a de adestramento dos animais, que exibia um esqueleto de cão enorme, preso numa gradinha, logo acima de um cão empalhado. As crianças pequenas acariciavam o cão empalhado numa boa. Ele estava do lado de um cabide com uma roupa grossa, parecendo de longe com o terno de feltro Joseph Beuys, usada para “para afiar a mordida dos cães”, segundo o soldado que demonstrava os equipamentos, que não sabia do que era feita a roupa.

Barraca de adestramento de animais

Coleira que dá choque e cacetete

Na grade bem ao lado, vários instrumentos de treinamento (para humanos) e tortura (para cães) do exército: varinhas, porretes e coleiras que dão choque, por exemplo. Uma foto de um cão-herói muito simpático pode fazer pensar que talvez os cães tenham uma quedinha por uniformes e adereços bacanas como os das Forças Armadas. Caramba!

Foto de um "cão herói"

Em casa, fui ler a revista “Recrutinha” que peguei no parque. Na página 2, uma explicação sobre o projeto Amazônia Protegida, que por decreto do presidente Lula em julho de 2008 amplia de 21 para 49 o número de pelotões especiais de fronteira, aumentado, ainda mais, a defesa da Amazônia pelo Exército Brasileiro”.

Seguem-se páginas sobre as atividades atuais do Exército no Amazonas, entre elas atendimento médico, escolar, emissão de carteiras de identidade, trabalho e título de eleitor, e também uma página sobre o Centro de Instrução de Guerra na selva, explicando que o exército “preserva a natureza”.

Depois, mais páginas sobre a Missão Brasileira de paz no Haiti. Num balão, lê-se a fala do pesonagem Recrutinha: “Você pode não ver, mas estamos sempre presentes”.

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