Irmãos Campana retomam atividades do início da carreira

Vavá Ribeiro/FolhaPress

Fernando e Humberto Campana dividem o mesmo terno

 

Reconhecidos pelos objetos e móveis feitos de material industrializado, barato e banal, tramados artesanalmente, com modos e maneiras tradicionais brasileiros, os irmãos Campana ocupam novos territórios.

A grande novidade é a retomada de suportes do início da carreira, como a escultura, atividade inicial de Humberto, 58 (que também é advogado), e a arquitetura, área de formação de Fernando, 50.

Os irmãos, hoje um dos maiores símbolos do design brasileiro no exterior, começaram a trabalhar juntos nos anos 1980 e ganharam destaque internacional por criar objetos –das cadeiras pop às sandálias Melissa– com desenho moderno aliado a elementos da culturaSó em 2011, foram quatro grandes projetos de intervenção em espaços arquitetônicos. O café do Teatro Municipal em São Paulo, o café do Museu d’Orsay em Paris, um hotel em Atenas e uma instalação para o MaXXI, o Museu de Arte do Século 21, em Roma.

popular. Vinda do interior de São Paulo, a dupla hoje tem peças espalhadas por museus como o MoMa, em Nova York.

Um dos projetos de maior destaque no ano passado foi o café do centenário Teatro Municipal de São Paulo. Para esse espaço, a dupla criou mesas com tampos irregulares espelhados, que ampliam o ambiente e refletem os afrescos, e luminárias de latão. As cadeiras originais foram mantidas.

“Todo mundo reconhece que foi a gente que criou o ambiente, mas quisemos fazer uma intervenção com respeito ao espírito do que havia lá antes”, diz Fernando Campana.

ENTRE GREGOS E CAMPANAS

Em julho, foi inaugurado o New Hotel, na Grécia, uma reformulação total dos interiores da construção dos anos 1950, feita com a colaboração de alunos de arquitetura da Universidade de Tessália.

Durante a obra, os irmãos ofereceram uma oficina para juntar à proposta original (reutilizar todo o mobiliário antigo de madeira) as ideias e soluções dos futuros designers e arquitetos gregos.

“Nós quisemos que eles conduzissem o processo, investigassem a cultura grega atual, os mercados populares, a modernidade da Grécia”, diz Humberto.

O restante da madeira retirada do mobiliário do hotel foi recortado para fazer painéis Favela –estruturas montadas com sarrafos pregados de forma irregular, à moda das moradias feitas sem régua e compasso, presentes na obra da dupla desde 1991-, da recepção ao restaurante, e cobrir alguns pilares.

A tradição grega também teve vez na oficina criativa. Para decorar o hotel, foram criadas figuras de metal, inspiradas nos Karagiozis, os bonequinhos bidimensionais do tradicional teatro de sombras da Grécia, aqueles que sempre são vistos de perfil.

O FUTURO NO MUSEU

Depois foi a vez do Café d’Orologe, no Museu d’Orsay, de Paris. Ali, os Campana reformularam a cozinha e a área do público, intervindo no projeto original, dos anos 1980. As luminárias da dupla foram usadas para emoldurar a estrela do café, o antigo relógio da estação francesa, construída em 1900.

Para fechar o ano, criaram uma instalação para o MaXXI, na Itália. A obra se projeta como uma língua de plástico para fora do museu. “A gente chamou, brincando, de correção primitiva da arquitetura. O museu tem um espaço sem teto, entre a marquise e a entrada, e as pessoas tomavam chuva ali”, diz Fernando.

Em Paris, neste ano, a dupla vai participar da reformulação do Lutetia, o primeiro hotel art déco da cidade, erguido em 1910. O Lutetia hospedou o escritor André Gide (1869-1951), e os pintores Picasso (1881-1973) e Matisse (1869-1954). E foi lá que a cantora Josephine Baker (1906-1975) passou sua lua de mel.

Os Campana farão um quarto, que ficará em uso para os hóspedes durante um ano. Se for bem recebido, será ampliado às demais acomodações.

Mesmo parando pouco em casa, os dois continuam presentes na programação cultural do país. Cerca de 121 mil pessoas visitaram a mostra “Anticorpos-Antibodies”, retrospectiva retratando 20 anos de atuação da dupla (1989-2009), no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, de novembro a janeiro.

Organizada e já exibida no museu Vitra Design, da Alemanha, a mostra passou por Vila Velha, no Espírito Santo, e por Brasília. E abre em fevereiro no CCBB do Rio, com cerca de 70 objetos, filmes, fotos, biografia e uma instalação.

A FAVELA ROMA

Em 2012, Humberto quer ficar mais tempo em Roma. “É uma favela de extratos do tempo. Politicamente incorreta em todos os sentidos”, diz ele. “Perfeita para vagabundear”, brinca Fernando.

Humberto se apaixonou pelos ornamentos e materiais tradicionais do mobiliário italiano. Trabalha num pequeno ateliê na região da via Giulia, onde há vários restauradores de mobiliário, marmoristas e bronzistas.

“Quero ficar mais próximo da produção. É muito útil pra gente conhecer o lixo, o restante, o que pode ser reaproveitado. E disso nascem novos conceitos”, diz Humberto.

Como a coleção barroca, que começou a convite da Galeria O, de Roma, interessada em promover o encontro de designers estrangeiros com elementos e técnicas da tradição artesanal italiana. A galeria levou a dupla para conhecer fornecedores de folheamento a ouro, gesso, madeira e bronze.

Com esses materiais, os Campana fizeram colagens de ornamentos suntuosos de bronze, latão e mármore de Carrara, matéria-prima usada no mobiliário italiano dos séculos 18 e 19, em cadeiras, mesas e luminárias.

O resultado foi exposto na mostra “Barroco Brasileiro”, na galeria Cortona, no barroquíssimo Palácio Pamphili, sede da embaixada brasileira na Itália. A mostra pode vir ao Brasil neste ano.

Os preços dos objetos dessa coleção vão de 15 mil a 45 mil euros –valores compatíveis com o mercado de luxo em que atuam os Campana.

CAMPANA NO PÉ

E quando os objetos serão acessíveis ao consumidor local? “Acho que agora os brasileiros vão poder consumir o luxo, porque a Europa inventou essa história, mas não tem mais dinheiro”, opina Fernando.

“Difícil é atender ao público tanto em ideias inovadoras quanto em preço. Nós não somos uma fábrica. Nossa parte é a ideia, o conceito”, diz. “Para tudo o mais a gente conta com empresas.”

Os irmãos designers ganham dinheiro no Brasil com royalties das Melissas Campana. “É até bom divulgar isso, para ver se as empresas de móveis se animam”, diz Fernando.

“O grande público conhece a gente pelos calçados”, diz Humberto. “E, se para sapato tem mercado, por que para o móvel não teria? Falta de ousadia das empresas. Por isso,
nosso produto não atinge o público brasileiro”, afirma.

A Grendene, que fabrica as sandálias, não divulga números de pares vendidos ou de faturamento, mas informa que os Campana são os que mais vendem entre todos os licenciados da marca. Os seus 45 modelos de Melissas “by Campana” também fazem sucesso nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia.

Os planos continuam. Em dois anos, eles querem ter pronta uma escola no sítio da família, em Brotas, a 240 km de São Paulo, para trabalhar com bambu e recuperar métodos tradicionais de trançados.

“O Fernando quer morar lá. Eu acho que dá para ficar longe. Com um certo atraso, a gente descobriu o Skype. Agora podemos até brigar a distância”, brinca Humberto.

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