Artista usa poluição, sujeira e dejetos como matéria prima de seu trabalho

Apagando com panos a sujeira de um túnel subterrâneo, ele criou o mural “Ossário”, de 300 metros, com 3.500 crânios desenhados, há quase dez anos. Durou pouco, mas fez história. Estava inventado o grafite reverso. Com a fuligem que extraiu da lavagem dos panos, fez pigmento para pinturas que espalhou por paredes e ruas.

Alexandre Orion, 37, fotógrafo, designer e artista, inclui poluição, fotografia, paisagens e habitantes urbanos em suas obras. O pensamento sobre a cidade não se resume aos materiais.

“Tudo que faço tem discurso, ideia, discussão sobre interdependência, comunidade. Não faço nada fechado, só conceitual. É tudo para tocar o outro. Sou mais comunicador que artista”, diz.

Orion acaba de encerrar uma mostra na galeria Luis Maluf, em São Paulo, em que exibiu rostos em painéis pintados com spray aparentando carvão, remetendo ao gestual do grafite.
Nascido em São Paulo, Orion desenha e pinta desde criança. Aos 13, influenciado pelo skate e pelo hip hop, fez o primeiro trabalho de parede. Depois vieram tatuagem, ilustração e direção de arte. Em 2002, trocou o trabalho “mais comercial” por projetos independentes. Formou-se em artes visuais, em 2004.

O mercado recebeu bem sua primeira série, “Metabiótica”, de 2002. As 20 imagens foram geradas a partir de pinturas nos muros que propunham interação com os passantes. O resultado foi registrado em fotografias. A série foi exposta na Pinacoteca, viajou pelo mundo e virou livro. “Os passantes tornaram-se personagens, acrescentando coisas”, diz.

Em 2006, veio a intervenção urbana “Ossário”, nas paredes do túnel Max Feffer, que liga as avenidas Europa e Cidade Jardim. Durante 12 noites, Orion ficava no corredor para pedestres tirando a fuligem para formar as caveiras, que remetiam a um sítio arqueológico urbano fictício. Também aludiam ao fato de a cidade ser construída para carros e não para pessoas.

CRIME AMBIENTAL

Na 13ª madrugada, três caminhões da prefeitura apagaram o mural, sem limpar nada do resto do túnel.

“‘Ossário’ foi construída sobre a ideia de crime. O crime ambiental que é a poluição, o descaso do poder público com os túneis e a pergunta do grafite reverso: o crime está na tinta, como diz a lei, ou na mensagem?”
Em 2014, para a Virada Cultural, Orion criou o mural “Apreensão”, em um CEU (Centro Educacional Unificado) no Grajaú. Numa empena de 15 metros de concreto, o artista desenhou uma menina gigante -a referência fotográfica é a filha caçula dele-_que brinca com casas do bairro na zona sul como se fossem pecinhas de um jogo.

“Eu queria uma imagem delicada. Ao mesmo tempo, o assunto das desapropriações ali é sério. A primeira impressão é agradável, mas o mural é uma janela surreal, um King Kong destruindo a cidade”, diz. “Não quero que seja só bonito. Quero que as pessoas vejam coisas ali.”

http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2015/06/1637804-artista-usa-poluicao-sujeira-e-dejetos-como-materia-prima-de-suas-obras.shtml

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